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segunda-feira, 28 de abril de 2025

INÉDITAS DO SAUDADES DO RIO (4)

Achei estas fotos "perdidas" no acervo. Acho que não foram publicadas no "SDR".

Os burros foram muito utilizados no Rio de antigamente, tanto que a famosa dupla Lulu&Dudu se consagrou nos velhos tempos do "Saudades do Rio".

Os burros foram muito utilizados para puxar bondes e para trabalhar na D.L.U. - Departamento de Limpeza Urbana.


FOTO 1: Em agosto de 1961 ainda existiam 1400 burros nos quadros do DLU - Departamento de Limpeza Urbana. Em agosto daquele ano o Governador Carlos Lacerda decidiu por aposentá-los e fez uma bela cerimônia no Palácio Guanabara.

Entretanto, havia muita dificuldade para decidir para onde mandá-los. A transferência para a Fazenda Modelo do Estado em Guaratiba foi vetada por falta de verbas, queixou-se o presidente da SUIPA. Em setembro assumiu o Sr. Angelo Vivacqua como presidente do DLU e prometeu uma solução. Em fevereiro de 1962 o problema foi parcialmente resolvido com a doação de boa quantidade de burros para lavradores cariocas. 

Lulu & Dudu, muito queridos pelo pessoal do S.E.M.P.R.E. foram levados para a antiga sede social do grupo no Alto da Boa Vista, onde hoje estão enterrados.


FOTO 2: Até banda de música homenageou os burros que foram aposentados.


FOTO 3: Aqui eram vários burros a puxar a carroça carregada.


FOTO 4: As parelhas de burro eram usadas para diversas atividades.


FOTO 5: A carroça do DLU estava carregada de garis.


FOTO 6: A Imprensa fazia grande campanha referente aos maus tratos dos animais: "Não se compreende que em pleno ano de 1960 os nossos grandes administradores, não obstante o advento da era atômica e outros sinais de progresso, estes sábios do Departamento de Limpeza Urbana, empreguem os pobres burros de modo tão desumano. Como se não bastasse o peso das carroças carregadas de lixo molhado, os grandes "intelectuais" do DLU ainda improvisam chapas, que colocadas nos anteparos, recebem maior altura de lixo."


FOTO 7: Os burros também puxavam os bondes, antes da implantação da energia elétrica neste serviço. O Helio Ribeiro poderá esclarecer vários aspectos deste serviço, tais como período de atuação, número de animais, locais de guarda, etc. 

O serviço de bondes puxados por animais começou em meados do século XIX. Em 1887 circulou o primeiro bonde movido por acumuladores elétricos do sistema Julien. Mas não deu certo. Em 1890 a Cia. Jardim Botânico tinha 90 carros e cerca de 1300 muares na tração desses veículos. Eram alimentados com alfafa procedente do Rio da Prata.

Os burros morriam, em média, com três anos de trabalho. Em 1892 foram feitos os primeiros ensaios com o bonde elétrico. Em 8 de outubro de 1892 houve a inauguração da tração elétrica na linha do Flamengo, fazendo o trajeto Teatro Lírico, Senador Dantas, Rua do Passeio, Lapa, Russell e Flamento, até as oficinas da CFCJB na Rua Dois de Dezembro.


FOTO 8: Conta Machado de Assis: (...) De repente ouvi vozes extranhas; pareceu-me que eram os burros que conversavam, inclinei-me (ia no banco da frente do bond); eram elles mesmos. Como eu conheço um pouco a lingua dos Houyhuhums, pelo que d´ella conta o famoso Gulliver, não me foi difficil apanhar o dialogo. Bem sei que cavallo não é burro; mas reconheci que a lingua era a mesma. O burro falla menos, de certo; é, talvez, o trapista d´aquella grande divisão animal, mas falla.

Fiquei inclinado e escutei: Tens e não tens razão, respondia o da direita ao da esquerda. O da esquerda: Desde que a tracção electrica se estenda a todos os bonds, estamos livres, parece claro. Claro, parece, mas entre parecer e ser, a differença é grande. Tu não conheces a historia da nossa especie, collega; ignoras a vida dos burros desde o começo do mundo. Tu nem reflectes que, tendo o salvador dos homens nascido entre nós, honrando a nossa humildade com a sua, nem no dia de Natal escapamos da pancadaria christan. Quem nos poupa no dia, vinga-se no dia seguinte. Que tem isso com a liberdade? 

Vejo, redarguiu melancholicamente o burro da direita, vejo que há muito de homem n´essa cabeça. Como assim? bradou o burro da esquerda, estacando o passo. O cocheiro, entre dous cochilos, juntou as redeas e golpeou a parelha. 

Sentiste o golpe? perguntou o animal da direita. Fica sabendo que vieram com a regra de se não empregar o chicote. Espanto universal dos cocheiros: onde é que se viu burro andar sem chicote? Todos os burros d´esse tempo entoaram canticos de alegria e abençoaram a idéa dos trilhos, sobre os quaes os carros deslisariam naturalmente. Não conheciam o homem. Sim, o homem imaginou um chicote, juntando as duas pontas das rédeas. Sei também que, em certos casos, usa um galho de arvore, ou uma vara de marmelleiro. Justamente. A que acho razão ao homem. Burro magro não tem força; mas, levando pancada, puxa. 

Sabes o que a directoria mandou dizer ao antigo gerente Shannon? Mandou isto: "Engorde os burros, dê-lhes de comer, muito capim, muito feno, traga-os fartos, para que elles se affeiçoem ao serviço; opportunamente mudaremos de politica, all right". D´isso não me queixo eu. Sou de poucos comeres; e quando menos trabalho, é quando estou repleto. Mas que tem capim com a nossa liberdade, depois do bond electrico? O bond electrico apenas nos fará mudar de senhor. De que modo? Nós somos bens da companhia. Quando tudo andar por arames, não somos já precisos, vendem-nos. Passamos naturalmente ás carroças. 

Pela burra de Balaam! Esclamou o burro da esquerda. Nenhuma aposentadoria? Nenhum premio? Nenhum sinal de gratificação? Oh! Mas onde está a justiça d´este mundo? Passaremos ás carroças, continuou o outro pacificamente, onde a nossa vida será um pouco melhor; não que nos falte pancada, mas o dono de um só burro sabe mais o que elle lhe custou. Um dia, a velhice, a lazeira, qualquer cousa que nos torne incapaz, restituir-nos-há a liberdade...

Enfim! Ficaremos soltos, na rua, por pouco tempo, arrancando alguma herva que ahi deixem crescer para recreio da vista. Mas que valem duas dentadas de herva, que nem sempre é viçosa! Enfraqueceremos; a edade ou a lazeira ir-nos-há matando, até que, para usar esta metaphora humana, esticaremos a canella. Então teremos a liberdade de apodrecer. Ao fim de trez dias, a vizinhança começa a notar que o burro cheira mal; conversação e queixumes. No quarto dia, um vizinho mais atrevido, corre aos jornaes, conta o facto e pede uma reclamação. No quinto dia sahe a reclamação impressa. No sexto dia, apparece um agente, verifica a exactidão da noticia; no septimo, chega uma carroça, puxada por outro burro e leva o cadaver. 

Seguiu-se uma pausa. Tu és lugubre, disse o burro da esquerda. Não conheces a lingua da esperança. Póde ser, meu collega; mas a esperança é propria das especies fracas, como o homem e o gafanhoto; o burro distingue-se pela fortaleza. A nossa raça é essencialmente philosophica. Ao homem que anda sobre dous pés, e provavelmente a aguia, que vôa alto, cabe a sciencia da astronomia. Nós nunca seremos astronomos; mas a philosophia é nossa. Todas as tentativas humanas a este respeito são perfeitas chimemanas. Cada seculo...

O freio cortou a phrase ao burro, porque o cocheiro encurtou as rédeas, e travou o carro. Tinhamos chegado ao ponto terminal. Desci e fui mirar os dous interlocutores. Não podea crer que fossem elles mesmos. Entretanto, o cocheiro e o conductor cuidaram de desatrelar a parelha para leval-a ao outro lado do carro; aproveitei a occasião e murmurei baixinho, entre os dous burros: Houyhuhums! Foi um choque electrico. Ambos deram um estremeção, levantaram as patas e perguntaram-me cheios de enthusiasmo: Que homem és tu, que sabes a nossa lingua? Mas o cocheiro, dando-lhe de rijo uma lambada, bradou para mim, que lhe não espantasse os animaes. Parece que a lambada devera ser em mim, se era eu que espantava os animaes; mas como dizia o burro da esquerda, ainda agora: Onde está a justiça d´este mundo?"

domingo, 27 de abril de 2025

TOURADA

 Segue o último email enviado por Rui Araujo sobre o tema de touradas, abordado em http://saudadesdoriodoluizd.blogspot.com/2024/10/touradas-no-rio.html e 

Caro Luiz,


Como me diz estar interessado na foto do cavaleiro tauromáquico José Bento de Araújo, que foi retirada de um livro publicado em França, tomo a liberdade de lhe mandar a referida imagem e ainda uma ampliação dos detalhes que foram apagados na foto do meu tetravô que o Luiz publicou no seu blogue.

Eis o texto escrito na parte apagada (mesmo por cima da mancha negra que se encontra no canto inferior direito da foto):

(citação): 

"Le caballero 
Bento de Araujo
Nimes - 1894"

Complemento de informação :

1- A Imprensa francesa denominou sistematicamente o cavaleiro José Bento de Araújo "caballero en plaza" (texto sempre lavrado em espanhol no país de Molière!). Todos os cavaleiros tauromáquicos eram, aliás, designados em França "caballeros en plaza". Em Espanha também o definiram assim muitas vezes. Escreviam, por vezes, na imprensa espanhola "rejoneador" por oposição a picador. Em português a expressão usada era simplesmente "cavaleiro".

2- O meu tetravô José Bento de Araújo (mais conhecido em Portugal e no Brasil por "Zé Bento") começou a actuar em França no ano de 1891. Também trabalhou nas praças de Portugal, Brasil (Rio de Janeiro e Belém do Pará, posteriormente) e de Espanha (Madrid, San Sebastián, Caudete, etc). 

Em 1891 começou por participar em corridas na "Gran Plaza" de Touros da "rue Pergolèse", situada, então, no Bois de Boulogne, hoje 16.º bairro (arrondissement) de Paris. Trabalhou nessa praça de touros da capital da França nas temporadas de 1891 e 1892. Seguidamente, deslocou-se para a Praça de Touros de Nimes, no Sul da França, onde permaneceu até 1894. Devo acrescentar que participou ainda em touradas noutras praças de França como Marselha, Avignon, Béziers, Mont-de_Marsan, etc. Depois, regressou a Lisboa e só mais tarde começou a deslocar-se ao Brasil.

3-  Também lhe envio uma chapa (com 2 fotos) do meu tetravô cavaleiro a tourear na Praça de Nimes (nas arenas romanas que ainda hoje existem). A foto que lhe faculto pertence ao espólio da Biblioteca Nacional de França (BNF) e pode ser consultada gratuitamente no sítio da BNF na internet.

Mais uma vez bem-haja pela honestidade demonstrada. Agradeço do mesmo modo os amáveis comentários dos seus leitores brasileiros. Permaneço ao seu dispor.

Saudações cordiais do (jornalista) Rui Araújo, Lisboa
AUTOR DO BLOGUE:





sábado, 26 de abril de 2025

DO FUNDO DO BAÚ: NO MUNDO DA LUA

O primeiro homem a pisar na Lua foi o astronauta americano Neil Armstrong, que fez história em 20 de julho de 1969, durante a missão Apollo 11. O segundo foi Buzz Aldrin.

As revistas semanais, como "Manchete", "O Cruzeiro" e "fatos&fotos", deram enorme destaque, como era previsível, a este acontecimento.

Na época, apesar da transmissão pela TV, muitos não acreditaram que tal fato aconteceu.

Você viu a transmissão?






O pensamento na época era que Marte seria alcançado por volta de 1980 e que no início do século XXI o Sistema Solar estaria sendo colonizado.

Parecia que uma nova era se abriria para a Humanidade. "That´s one small step for man; one giant leap for mankind", disse Armstrong. Se foi verdade em termos de tecnologia, para os humanos continuamos aqueles macacos sem pelos que desceram das árvores e começaram a andar pelas savanas, apenas com um leve verniz de civilidade.


sexta-feira, 25 de abril de 2025

INÉDITAS NO SAUDADES DO RIO (3)

 

FOTO 1: Bairro residencial da Zona Norte do Rio de Janeiro, o Grajaú, ao contrário dos seus vizinhos da Grande Tijuca (Andaraí, Maracanã, Praça da Bandeira, Tijuca, Vila Isabel e Alto da Boa Vista) foi um bairro planejado, construído no início do século XX. 

Em 1913, a prefeitura aprovou o plano da Companhia Brasileira de Imóveis e Construções para a abertura de ruas e praças ao sopé do Maciço da Tijuca, região conhecida como Vale dos Elefantes, onde anteriormente existiam três grandes fazendas de café: Vila Rica; Fazenda Morumby e Visconde de Alcântara. 

A primeira rua aberta foi a Grajaú, que deu nome ao bairro, batizada assim, em homenagem a cidade maranhense de mesmo nome, terra natal do engenheiro responsável pelo plano de urbanização, Antônio Eugenio Richard Junior. Outros logradouros também receberam nomes de cidades e rios maranhenses, como as ruas Gurupi, Mearim e Itabaiana. 

O projeto do bairro tem traçado retangular, com ruas largas, lotes e quarteirões seguindo o mesmo modelo. As calçadas e casas ajardinadas intentavam a integração entre o urbano e a paisagem natural. À época, foi considerado um plano urbanístico pioneiro, elogiado pelo arquiteto francês Alfred Agache.

Na foto, o Grajaú na década de 1970, bairro arborizado de casas residenciais e ruas amplas, como em seu projeto original. 

FOTO 2: Esta era considerada uma "curva da morte". Ficava na confluência da Av. Meriti, com a Estrada do Quitungo e Rua Manuel de Oliveira. Os veículos que vinham de Brás de Pina com destino a Irajá, por conta da velocidade, frequentemente causavam acidentes. Foto de 29/01/1964

FOTO 3: Em 12/05/1965 os moradores de Jacarepaguá, mais precisamente do bairro da Freguesia, queixavam-se do drama que vinhamvivendo no que se refere à falta de meios de transporte, principalmente para os moradores das ruas Bananal, Guari e Ituverava. Eles tinham de deslocar-se a pé por mais de um quilômetro para chegar à Estrada de Jacarepaguá. Solicitavam o aumento do itinerário da linha Cascadura - Gardênia Azul a fim de atendê-los.

FOTO 4: Outubro de 1967. Vemos a Avenida Suburbana, esquina com Rua Silva Gomes, em frente à ponte.

FOTO 5: Onde em Campo Grande?

FOTO 6: Onde no Grajaú?

NOTA: fotos do acervo do Correio da Manhã, da coluna "O Gerico" (a grafia era esta). Era um página do jornal que cobrava providências dos moradores. Algo como os telejornais matutinos de hoje.

As fotos estão catalogadas como não publicadas, mas eventualmente podem ter sido copiadas em duplicata.

quinta-feira, 24 de abril de 2025

SOBRE TOURADAS NO RIO

Com certa frequência sou surpreendido com emails que pedem informações sobre postagens feitas no "Saudades do Rio". Na maioria das vezes são pesquisadores ou estudantes que estão desenvolvendo teses sobre o Rio. Outras vezes são pessoas que encontram conhecidos nas fotos publicadas. Muitos chegam ao "Saudades do Rio" por pesquisas no Google.

Esta semana recebi dois desses emails. Um veio de um jornalista de São Paulo que pediu permissão para usar informações de uma publicação sobre a oficina Lemos&Brentar. Após conversar com o Gustavo Lemos, autorizamos a utilização.

O outro email veio de Portugal, enviado por Rui Araujo e referia-se à foto:

"Caro Luiz,

uma foto do cavaleiro português José Bento de Araújo acompanhada da seguinte explicação:

"FOTO 5: Nesta foto, também do acervo do Cau, é de José Bento de Araújo, famoso cavaleiro, quando atuava na praça de touros em Laranjeiras, em 1901. "

         É triplamente falso !


1- A foto não foi tirada na praça das Laranjeiras (Rio de Janeiro).
Foi tirada na praça de touros de Nimes, em França.

2- A foto não foi tirada em 1901.
Foi tirada em 1894.

3- A foto que publica foi retirada de um livro publicado em França. Não é do acervo do Cau.
A foto que o Luiz publica foi cortada (ou pelo acervo ou pelo Luiz). O original da foto contém o local e a data em que a mesma foi feita.

Poderá encontrar tudo isso e muito mais no meu blogue :

Publico nesse espaço há vários anos informação oriunda de Portugal, Espanha, França e Brasil.sobre José Bento de Araújo porquanto o referido cavaleiro tauromáquico é o meu tetravô.

Pensei que esta singela correcção pode ter utilidade para si e para os nossos amigos leitores do seu blogue.

Se precisar, posso procurar dados mais detalhados.

Saudações cordiais de Lisboa.

Rui Araujo
Reporter"

Imediatamente respondi que iria publicar aqui a correção e recebi como resposta:

"Estimado Luiz,

Agradeço a afável resposta que teve a amabilidade de me enviar.
Aproveito a oportunidade para complementar a minha mensagem anterior com um dado que poserá ter interesse para si: a foto do meu antepassado que publica no seu blogue foi adulterada. 
Com efeito, alguém apagou no original (quase por cima da mancha negra redonda) a data e o local. Se olhar bem,  constará facilmente que o trabalho foi mal feito...

Saudações cordiais.

Rui Araújo"

A menção ao "acervo do Cau" foi feita por mim, ao encontrar a foto em pesquisa na Internet e posso ter  interpretado mal o que li. Fica aqui a explicação.

Agradeço a colaboração de Rui Araújo. 



quarta-feira, 23 de abril de 2025

INÉDITAS NO SAUDADES DO RIO (2)

Tenho muitas fotografias nunca publicadas e "perdidas" no meu acervo. Foram garimpadas e arquivadas e, por um motivo ou outro, não foram publicadas.

Na data de hoje há um total de 21567 fotos (algumas repetidas, é verdade) no acervo.

Hoje temos mais uma série das "perdidas", desta vez tendo como tema a Praia de Botafogo.


FOTO 1


FOTO 2


FOTO 3


FOTO 4


FOTO 5


FOTO 6


FOTO 7


FOTO 8


FOTO 9


FOTO 10



terça-feira, 22 de abril de 2025

O RADINHO


Um radinho SPICA absolutamente igual a um que ganhei de presente da madrinha. Era companheiro de todas as horas, da mesa de cabeceira ao velho “Maraca”.

Era o tempo do bom futebol, de Garrincha, Didi, Newton Santos (depois virou Nilton), Quarentinha, Zagalo, Sabará, Pinga, Almir, Delém, Paulinho, Belini, Valdo, Telê, Maurinho, Castilho, Pinheiro, Joel, Dida, Dequinha, Indio, Babá, Evaristo, Zózimo, Calazans, Alarcon, Canário e tantos outros que vi no Maracanã e pelos campos pequenos do Rio (São Januário,  Moça Bonita, Campos Sales,  Gávea, General Severiano,  Laranjeiras, Conselheiro Galvão,   Bariri,  Teixeira de Castro, em Niterói (Canto do Rio), Kosmos (Portuguesa),  Italo Del Cima,  Figueira de Melo.

Era o tempo em que os árbitros ainda eram "juízes", tais como Mario Vianna, Gama Malcher, Eunápio de Queirós (o "Larápio de Queirós"), Amilcar Ferreira, Frederico Lopes, José Gomes Sobrinho.

Era o tempo em que a SUDERJ era ainda ADEM (Administração dos Estádios Municipais), depois virou ADEG (Administração dos Estádios da Guanabara), em que o alto-falante a toda hora anunciava "a Adeg informa, no Pacaembu, gol do Santos (e após um pausa) ...Pelé`!!!", em que o cachorro-quente da Geneal e o Chica-Bon faziam a alegria de todos. Para ir para o Maraca pegava o lotação Lins-Lagoa ou os ônibus Grajaú-Leblon ou Barão de Drumond-Leblon.

Era o tempo de sonhar com a vitória do time, de ver quem ganharia o moto-rádio ou seria escalado na "seleção da rodada" (para ganhar um relógio Mondaine), de ler a coluna "Penalty" do Otelo Caçador.

Era o tempo da Charanga do Jaime, do talo de mamona do Ramalho, de ver a Dulce Rosalina comandar a torcida do Vasco, o Careca liderar a do Fluminense e o Tarzan a do Botafogo (muito antes do Russão), de espirrar com o pó-de-arroz lançado pelos tricolores. 

Era o tempo de milhares de vagalumes na arquibancada (quando os fósforos eram riscados para acender os cigarros), da bola G-18 marron, do "garoto do placar", da arquibancada de concreto áspero. 

Era o tempo de ouvir o Valdir Amaral, o Doalcei Camargo, o Oduvaldo Cozzi, o Jorge Curi, o Orlando Batista, o Clóvis Filho. E os comentaristas Benjamim Wright e Rui Porto. 


No SPICA, que tinha também um “egoísta” numa bolsinha presa na tira que envolvia o radinho, a estação preferida era a Continental, cujas transmissões esportivas tinham uma dramaticidade tremenda e a equipe de reportagem era comandada pelo Carlos Pallut. Havia muitas trocas de locais de trabalho entre os locutores, mas na Continental lembro do Clovis Filho, Benjamim Wright, Carlos Marcondes, Teixeira Heizer, Luiz Fernando. Transmissões patrocinadas pela “MIL – a milionária do Castelo”. "Motorista de ônibus ou de praça, particular ou lotação, respeite o sinal, não ande em contra mão. E salve o motorista do Brasil (buzina) que é freguês da Mil". A milionária do Castelo.

Capítulo à parte eram os locutores e seus bordões: na Rádio Globo, Waldir Amaral ("você ouvinte é nossa meta. Pensando em você é que fazemos o melhor"; "está deserto e adormecido o gigante do Maracanã"), João Saldanha ("meus amigos") e Mário Vianna ("errrrou! errrrou! banheeeeiraaaa! ilegal! gol ilegal"). Na Rádio Tupi, Doalcei Camargo ("o relógio marca"), Rui Porto. E ainda Antonio Cordeiro, Orlando Baptista e seu linguajar empolado, Geraldo Romualdo da Silva. Todos viam a bola “passar raspando”, “um perigo iminente”, “um gol impossível de perder”, tornando qualquer jogo insosso na mais dramática das partidas para angústia de todos nós, torcedores. E, além dos bordões, criavam apelidos para os heróis de nossa infância: “Enciclopédia”, “Violino”, “Leão da Copa”, “Leiteiro”, “Constellation”, “Formiguinha”, “Príncipe Etíope”, “Doutor”, “A mais alta patente do futebol brasileiro”, “Rei”, "Possesso", “Rei da folha seca”, "Queixada", e tantos outros...

Também não faltava a Rádio-Relógio que, de minuto a minuto, dava a hora certa (eram 30 segundos de anúncios, tipo “Galeria Silvestre, a galeria da luz, depois do sol quem ilumina seu lar é a Galeria Silvestre”, e 30 segundos de informações gerais). Na Rádio Jornal do Brasil, o "Pergunte ao João"  era uma espécie de Google da época, tirando as dúvidas dos mais variados assuntos, e o “Encontro Marcado”, com Dom Marcos Barbosa, era um clássico. Na Rádio Nacional, era imperdível o "Repórter Esso", com Heron Domingues, e o "Balança mas não cai" com seus quadros famosos: Primo Pobre (Brandão Filho) e Primo Rico (P. Gracindo) e Peladinho (Germano), o folclórico flamenguista. E o diário “No mundo da bola”, patrocinado pelas Casas Hudersfield ("difícil de pronunciar, mas fácil de encontrar"). Na Rádio Tamoio o destaque era o “Música na Passarela”, com a famosa música ciclâmen. Acho que na Rádio Mayrink Veiga ouvia a “PRK-30”.