Achei estas fotos "perdidas" no acervo. Acho que não foram publicadas no "SDR".
Os burros foram muito utilizados no Rio de antigamente, tanto que a famosa dupla Lulu&Dudu se consagrou nos velhos tempos do "Saudades do Rio".
Os burros foram muito utilizados para puxar bondes e para trabalhar na D.L.U. - Departamento de Limpeza Urbana.
FOTO 8: Conta Machado de Assis: (...) De repente ouvi vozes extranhas; pareceu-me que eram os burros que conversavam, inclinei-me (ia no banco da frente do bond); eram elles mesmos. Como eu conheço um pouco a lingua dos Houyhuhums, pelo que d´ella conta o famoso Gulliver, não me foi difficil apanhar o dialogo. Bem sei que cavallo não é burro; mas reconheci que a lingua era a mesma. O burro falla menos, de certo; é, talvez, o trapista d´aquella grande divisão animal, mas falla.
Fiquei inclinado e escutei: Tens e não tens razão, respondia o da direita ao da esquerda. O da esquerda: Desde que a tracção electrica se estenda a todos os bonds, estamos livres, parece claro. Claro, parece, mas entre parecer e ser, a differença é grande. Tu não conheces a historia da nossa especie, collega; ignoras a vida dos burros desde o começo do mundo. Tu nem reflectes que, tendo o salvador dos homens nascido entre nós, honrando a nossa humildade com a sua, nem no dia de Natal escapamos da pancadaria christan. Quem nos poupa no dia, vinga-se no dia seguinte. Que tem isso com a liberdade?
Vejo, redarguiu melancholicamente o burro da direita, vejo que há muito de homem n´essa cabeça. Como assim? bradou o burro da esquerda, estacando o passo. O cocheiro, entre dous cochilos, juntou as redeas e golpeou a parelha.
Sentiste o golpe? perguntou o animal da direita. Fica sabendo que vieram com a regra de se não empregar o chicote. Espanto universal dos cocheiros: onde é que se viu burro andar sem chicote? Todos os burros d´esse tempo entoaram canticos de alegria e abençoaram a idéa dos trilhos, sobre os quaes os carros deslisariam naturalmente. Não conheciam o homem. Sim, o homem imaginou um chicote, juntando as duas pontas das rédeas. Sei também que, em certos casos, usa um galho de arvore, ou uma vara de marmelleiro. Justamente. A que acho razão ao homem. Burro magro não tem força; mas, levando pancada, puxa.
Sabes o que a directoria mandou dizer ao antigo gerente Shannon? Mandou isto: "Engorde os burros, dê-lhes de comer, muito capim, muito feno, traga-os fartos, para que elles se affeiçoem ao serviço; opportunamente mudaremos de politica, all right". D´isso não me queixo eu. Sou de poucos comeres; e quando menos trabalho, é quando estou repleto. Mas que tem capim com a nossa liberdade, depois do bond electrico? O bond electrico apenas nos fará mudar de senhor. De que modo? Nós somos bens da companhia. Quando tudo andar por arames, não somos já precisos, vendem-nos. Passamos naturalmente ás carroças.
Pela burra de Balaam! Esclamou o burro da esquerda. Nenhuma aposentadoria? Nenhum premio? Nenhum sinal de gratificação? Oh! Mas onde está a justiça d´este mundo? Passaremos ás carroças, continuou o outro pacificamente, onde a nossa vida será um pouco melhor; não que nos falte pancada, mas o dono de um só burro sabe mais o que elle lhe custou. Um dia, a velhice, a lazeira, qualquer cousa que nos torne incapaz, restituir-nos-há a liberdade...
Enfim! Ficaremos soltos, na rua, por pouco tempo, arrancando alguma herva que ahi deixem crescer para recreio da vista. Mas que valem duas dentadas de herva, que nem sempre é viçosa! Enfraqueceremos; a edade ou a lazeira ir-nos-há matando, até que, para usar esta metaphora humana, esticaremos a canella. Então teremos a liberdade de apodrecer. Ao fim de trez dias, a vizinhança começa a notar que o burro cheira mal; conversação e queixumes. No quarto dia, um vizinho mais atrevido, corre aos jornaes, conta o facto e pede uma reclamação. No quinto dia sahe a reclamação impressa. No sexto dia, apparece um agente, verifica a exactidão da noticia; no septimo, chega uma carroça, puxada por outro burro e leva o cadaver.
Seguiu-se uma pausa. Tu és lugubre, disse o burro da esquerda. Não conheces a lingua da esperança. Póde ser, meu collega; mas a esperança é propria das especies fracas, como o homem e o gafanhoto; o burro distingue-se pela fortaleza. A nossa raça é essencialmente philosophica. Ao homem que anda sobre dous pés, e provavelmente a aguia, que vôa alto, cabe a sciencia da astronomia. Nós nunca seremos astronomos; mas a philosophia é nossa. Todas as tentativas humanas a este respeito são perfeitas chimemanas. Cada seculo...
O freio cortou a phrase ao burro, porque o cocheiro encurtou as rédeas, e travou o carro. Tinhamos chegado ao ponto terminal. Desci e fui mirar os dous interlocutores. Não podea crer que fossem elles mesmos. Entretanto, o cocheiro e o conductor cuidaram de desatrelar a parelha para leval-a ao outro lado do carro; aproveitei a occasião e murmurei baixinho, entre os dous burros: Houyhuhums! Foi um choque electrico. Ambos deram um estremeção, levantaram as patas e perguntaram-me cheios de enthusiasmo: Que homem és tu, que sabes a nossa lingua? Mas o cocheiro, dando-lhe de rijo uma lambada, bradou para mim, que lhe não espantasse os animaes. Parece que a lambada devera ser em mim, se era eu que espantava os animaes; mas como dizia o burro da esquerda, ainda agora: Onde está a justiça d´este mundo?"
































