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sábado, 17 de maio de 2025

DO FUNDO DO BAÚ - ANTIGAMENTE ERA ASSIM

 

Ilustríssimo comentarista do "Saudades do Rio" foi obrigado, como castigo, a "fazer cem linhas" por mau comportamento: "Não devo falar durante a explicação das matérias."

 Será que o castigo foi eficaz?


"Classificação periódica dos elementos" e uma "régua de cálculo". Há muito tempo  sabia como manejá-las, mas hoje... 

Quantas coisas tínhamos que aprender e quantas serviram para a vida adulta? 

Encontrei um caderno de provas da década de 1960, do ginásio do Colégio Santo Inácio e não consegui responder a quase nenhuma das perguntas das diversas matérias. Somente consultando o Google saberia responder a todas. E vocês?

1) Quem criou os éfetas? A paz de Callia foi feita em que época? Onde morreu Ciro, o Jovem? Quando foi a paz de Antálcidas (História – 3º ginásio).

2) No “mapa-mudo” localizar a Península de Taitao, a Península Paraguamo, o Rio Negro (platino) e o Cabo Correntes (Geografia-2º ginásio). 

3) Quais os seis pecados contra o Espírito Santo? (Religião-2º ginásio). 

4) Conjugue o “présent du subjonctif du verbe savoir” (Francês-2º ginásio).

5) Determine a perspectiva paralela de um cone reto 0,06m de altura, sabendo-se que o diâmetro da base vale 0,06m e o afastamento do centro é igual a 0,05m (Desenho-2º ginásio). 

6) Numa proporção contínua o produto dos termos é 104976. O quarto termo é igual à soma dos meios. Escrever a proporção (Matemática-3º ginásio). 

7) Inscreve-se um triângulo ABC numa circunferência de centro O. Traça-se a bissetriz interna do ângulo A que corta a reta BC no ponto E e a circunferência no ponto D. Liga-se D a O. Mostrar que DO é mediatriz do segmento BC (Matemática-4º ginásio). 

8) Traduza: proelia contra finítimos civitatem perturbaverant (Latim – 4º ginásio). 

9) Qual a importância da lei de Proust para diferenciar uma mistura de uma combinação? (Ciências – 4º ginásio). 

10) Qual a diferença entre latria, hiperdulia, dulia e protodulia? (Religião-3º ginásio). 

11) Qual destes reis assírios conquistou Israel? Sargão II, Senaqueribe ou Assaradão (História – 3º ginásio). 

12) Defina e exemplifique substantivos epicenos (Português-4º ginásio). 

13) Hodie mira spectacula incolis praebebuntur (Latim-4º ginásio). 

14) Utilizando somente sódio, etanol e pentacloreto de fósforo, obtenha o éter dietílico (Química-2º científico). 

15)Enuncie e demonstre o teorema de Varignon (Ciências-4º Ginásio).

Poderíamos ser bem sucedidos ignorando tudo isto?

Muito antigamente eram assim os cadernos do Colégio Santo Inácio. Acabaram lá pelo início dos anos 1960.


Depois os antigos cadernos foram substituídos por estes da FENAME - Fundação Nacional de Material Escolar. Por que FENAME e não FUNAME?

Havia nas cores verde e amarela.

No final do curso já se usavam aqueles fichários da Papelaria União.


Na minha época eram assim as salas de aula do Colégio Santo Inácio. Abaixo do crucifixo ficava a imagem de Nossa Senhora do Bom Conselho. Usava-se paletó, todos os alunos deveriam ficar de pé e em silêncio quando o professor entrava na sala. A disciplina era muito rígida.

Nessas carteiras, divididas por dois alunos, ainda havia um buraco bem no meio da mesa, onde anos antes eram colocados os tinteiros. As cortinas das janelas pareciam velas de um barco.

Evidentemente havia muitas brincadeiras, sempre severamente punidas. Uma delas era colocar a mesa do professor o mais próximo possível da borda da plataforma, para que ela caísse no meio da aula. A chamada, que ocorria a cada aula, era pelo nome completo do aluno. O resultado é que todos sabem, até hoje, o nome completo dos colegas, tantas foram as repetições.


sexta-feira, 16 de maio de 2025

LUMINOSOS

 

FOTO 1: Em 2007 nosso prezado amigo Rouen publicou esta fotografia no estupendo "fotolog ARQUEOLOGIA DO RIO" com o seguinte texto: 

“Em meados dos anos 1950 eu morava na Av. Rui Barbosa e vivia incansavelmente debruçado na varanda vendo aquela vista fantástica. Passei a reparar uma mudança na paisagem em certa área acima da Av. São Sebastião, na Urca. Eram uns poucos painéis esverdeados que cresciam até formar um enorme retângulo. Ninguém imaginava o que poderia ser. Até que o jornal “O Globo” inaugurou o “Jornal Luminoso”, no final de julho de 1956.”

Lembro que muito se discutiu naquela postagem do Rouen como funcionava aquela “geringonça”, com todos os comentaristas palpitando. Recentemente descobri uma reportagem que explicava o funcionamento:

“Os jornais luminosos começaram no Japão, nos anos 50, quando um engenheiro que trabalhava com projetores coloridos de propaganda, inventou o jornal luminoso colorido.

Utilizando o mercúrio, que é um metal líquido, para fazer os contatos elétricos, o engenheiro eliminou a necessidade das chaves individuais de cada lâmpada, tornando possível a confecção de matrizes mais simples.

Em uma fita de papel “crafto” especial, medindo 22,5 cm de largura, são desenhadas as letras formando as palavras e as frases. Com uma ponta de fogo e seguindo a orientação de uma matriz, o técnico perfura o papel de acordo com o desenho prévio, correspondendo cada furo a uma lâmpada que se deverá acender no luminoso para a formação da letra ou do desenho previsto.

Depois de feitas as perfurações, letra por letra, de todo o noticiário ou do anúncio a ser reproduzido, procede-se a um lixamento da fita “crafto”, aparando-se as rebarbas e pulverizando-se sua superfície com um talco especial. Esta fita é colocada em uma máquina composta de vários cilindros, deslizando rapidamente até a caixa de comando. A caixa de comando tem forma retangular, medindo 25cm de largura por um metro de comprimento. Esta caixa tem como fundo uma placa de cobre com 5040 pontos de contato, ligados às 5040 lâmpadas do gigantesco luminoso.

A fita “crafto” desliza sobre a superfície de cobre, separando os pontos de contatos de uma camada de mercúrio carregada de eletricidade. Essa camada de mercúrio, que pesa vinte quilos, entra em contato com a chapa de cobre apenas nos pontos perfurados, estabelecendo assim a ligação e acendendo as lâmpadas correspondentes no painel. O contínuo movimento da fita, cujas pontas são emendadas, reproduz no luminoso tudo o que nela estiver gravado.

O primeiro jornal luminoso instalado no Rio tinha as seguintes medidas: 78 metros de comprimento por 12 metros de altura (936 metros quadrados), sendo suas letras coloridas visíveis a mais de quatro quilômetros de distância. Na sua estrutura foram empregados 2520 refletores de metal, 50 toneladas de ferro e 5040 lâmpadas de 120 volts.”

FOTO 2: A empresa responsável pelo “Jornal Luminoso” era a “Rainbow”. Este jornal fazia muito sucesso, mas aconteceu um fato curioso em abril de 1957, como comentou o Decourt: um gaiato qualquer ligou para o operador do letreiro, dizendo que era da redação de "O Globo", e mandou colocar a seguinte notícia "Rússia invade Turquia", ou seja, na época de Guerra Fria a 3ª Guerra Mundial poderia estar começando. A notícia ficou algumas horas no ar, apavorando muita gente...

FOTO 3: O "Jornal Luminoso da Rainbow" aparece bem à esquerda.

FOTO 4: Mas havia outros luminosos que chamavam a atenção. O anúncio da Salutaris com o copo se enchendo de água com gás, no Morro do Pasmado, era conhecido por todos que passavam pela vizinhança. 

Nesta foto vemos ainda o anúncio "Cinzano" atrás do prédio da Policlínica de Botafogo e, mais à direita, as sedes dos clubes Guanabara e Botafogo.


FOTO 5: Ainda na região do Pasmado, vemos os luminosos "Salutaris", "Cinzano", "Coca-Cola", "Mido".


FOTO 6: No Morro da Viúva, antes de ser cercado pelos arranha-céus, havia luminosos "Pilot" e "Chapeos Serricchio". O logotipo da Texaco do Posto Amendoeira aparece só um pouquinho, atrás das árvores.


FOTO 7: Bem à direita, no alto dos prédios, vemos mais dois luminosos que chamavam a atenção: o da "ESSO" e o do "Novo Mundo".

quarta-feira, 14 de maio de 2025

LAGOA

Há poucos dias recebi este email: "Olá, Luiz, meu nome é André Maurício e acompanho o seu blog de fotos antigas do Rio faz tempo, mas só agora fui incentivado a mandar foto para ver se tem interesse, tenho outras que estou escaneando. 

São fotos da família que meu Pai fez, ele gostava de filmar e fotografar, Bias Francisco Gonçalves. Essa foto que estou mandando acho que é do ano de 1970, sou eu em um carrinho ao lado do tobogã amarelo que tinha na altura da favela da Catacumba.

Grato pela atenção
André Maurício"

Agradeço ao André Maurício, pois as fotos familiares são sempre interessantes, por mostrar o cotidiano do Rio antigo.


FOTO 1: Vemos o André Maurício pilotando um bólido na pista que ficava entre o Corte do Cantagalo e a antiga Favela da Catacumba. 
Com uma boa lupa é possível me ver lá naquele prédio ao fundo fotografando as mudanças da Lagoa após a construção do viaduto Augusto Frederico Schmidt.


FOTO 2: Aqui, em foto do acervo do "Correio da Manhã", vemos que antes da conclusão das obras do espaço projetado para a Lagoa, vários equipamentos temporários foram instalados para diversão, tais como uma pequena pista de kart, pedalinhos e mini-golfe. 
Lá no fundo, junto ao Corte do Cantagalo, ainda funcionava o famoso posto de gasolina Ipiranga.



FOTO : Da janela de casa, pouco tempo depois das fotos anteriores, tirei esta fotografia. A remoção da Favela da Catacumba já tinha acontecido e não havia sido iniciada a construção dos atuais prédios de luxo entre o Corte e a Curva do Calombo. 

O posto da Petrobrás e o tobogã, que teve um sucesso estrondoso e efêmero, lá estavam, diante do que hoje é o Parque da Catacumba. Os restos do aterro feito para a duplicação das pistas da Epitácio Pessoa e para a construção do Viaduto Augusto Frederico Schmidt ainda enfeiavam esta área. 

E, solitária, a casa do amigo do Lavra a tudo testemunhava. E da janela, do lado de cá, eu também.


segunda-feira, 12 de maio de 2025

PRAÇA GENERAL TIBÚRCIO

A Praça General Tibúrcio, situada no final da Rua Pasteur, já foi chamada de Praça Major Ribeiro Pinheiro e Praça Adalberto Ferreira. Já apareceu inúmeras vezes no “Saudades do Rio”.

O homenageado é o general Antônio Tibúrcio Ferreira de Souza, militar que lutou na Guerra do Paraguai.



FOTO 1: Vemos a Praça General Tibúrcio, na Praia Vermelha, em 1938. Ali atrás vemos o prédio em construção onde se instalaria em 1942 a Escola Técnica do Exército que até então funcionava em outro local.

Já sob a influência norte-americana, foi criado o Instituto Militar de Tecnologia (1949). Iniciavam-se, então, programas de estudo, pesquisa e controle de materiais para a indústria.  

Da fusão da Escola Técnica do Exército com o Instituto Militar de Tecnologia, em 1959, nasceu o atual Instituto Militar de Engenharia (IME).

Atualmente o IME é reconhecido como um centro de excelência no ensino da Engenharia.


FOTO : Garimpada pelo Nickolas. Vemos a Praça General Tibúrcio com o monumento aos heróis do drama épico da Retirada da Laguna e de Dourados, capitaneados pelo tenente Antônio João. Data de 1920. O primeiro projeto proposto foi de autoria do general Maciel de Miranda, e deveria ser erguido no pátio interno do Quartel-General do Rio de Janeiro, depois Ministério da Guerra.

O atual monumento, em bronze e granito, foi uma iniciativa do coronel Pedro Cordolino Ferreira de Azevedo. Sobre uma base circular está uma cripta onde se encontram os restos mortais do coronel Camisão, do guia Lopes e do tenente Antônio João, desde 15 de novembro de 1941, quando foi inaugurada. Dessa base ergue-se a coluna onde está a alegoria da Vitória.

Ao centro da coluna estão as estátuas dos três principais heróis: o tenente Antônio João, no momento em que, baleado, cambaleia; o guia Lopes, recurvado, apoiando o queixo no dorso da mão esquerda; e o coronel Camisão, com a fisionomia de quem tem uma grave decisão a tomar, tendo numa das mãos a espada e na outra o mapa de campanha. Mais acima, do ponto onde parte a coluna, erguem-se três grandes alegorias em bronze, representando a Pátria, a Espada e a História.

Diversos artistas participaram da execução do Monumento. A grade à entrada da cripta é de Curzio Zani. A porta de entrada do recinto é de Calmon Barreto; a imagem de Cristo sobre a lápide é do mesmo artista; o lanceiro guardando o sarcófago é de Leão Veloso, e os sete medalhões com efígies e nomes dos heróis são de Adalberto de Matos.


FOTO 3: Esta bela fotografia da Praça General Tibúrcio foi enviada pela Cristina Pedroso e publicada pelo desaparecido Derani. Ao fundo o saudoso prédio da Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil, posto abaixo pelos militares na década de 1970. Um solitário Cadillac contorna a praça.


FOTO 4: Nesta foto, garimpada pelo Rouen, vemos a praça com sua configuração antiga. Podemos observar os trilhos do “rodo” para retorno do bonde 4 até o Tabuleiro da Baiana. Aparentemente há uma fila para entrada na bilheteria do bondinho do Pão de Açúcar.


FOTO 5: Um belo cartão-postal com o Morro do Pão de Açúcar, o IME e o monumento aos heróis de Laguna e Dourados.


FOTO 6: Um bonde da linha 4 - P. Vermelha, no "rodo" da Praça General Tibúrcio. O pequeno reboque, aberto, será objeto de comentários do Helio Ribeiro.


FOTO 7: Conta Dunlop que no final do século XIX a Cia. Jardim Botânico conseguiu autorização para o prolongamento da linha de bondes até a antiga Escola Militar, na Praia Vermelha.

O primeiro bonde “Praia Vermelha” trafegou em 26/06/1890. Os trilhos assentados foram obtidos da Cia. de São Cristóvão, pois não os havia nos depósitos da Jardim Botânico. 

Nesta colorização do Nickolas Nogueira vemos o bonde, o Helio poderá confirmar, que fez a última viagem da linha 4, em 28 de setembro de 1962.


FOTO 8: Segundo o Rouen, esta fotografia foi publicada em uma edição do "Cadernos de Automóveis", do jornal "O Globo". Mas tia Milu, embaixadora plenipotenciária da Urca e Adjacências, garante nunca ter havido, nesta época, bodes ou assemelhados para aluguel na Praça General Tibúrcio.


FOTO 9: Terminamos esta série com esta estupenda colorização do Nickolas Nogueira sobre uma foto de sua família: a mãe e as tias dele, elegantemente vestidas, num passeio à Praça General Tibúrcio.

sexta-feira, 9 de maio de 2025

quarta-feira, 7 de maio de 2025

BONDES - ISSO VOCÊ NÃO SABIA

 

                BONDES – ISSO VOCÊ NÃO SABIA, por Helio Ribeiro.

O assunto “bondes” já foi bastante explorado aqui no SDR, em postagens não necessariamente dedicadas a eles mas que exibiam suas fotos. 

Por isso, bonde não é novidade aqui. Em 02 de agosto de 2022 o SDR publicou uma postagem minha mostrando nove tipos especiais de bondes, que provavelmente nenhum de vocês chegou a ver rodando nas ruas. Eu mesmo só vi dois deles, pois os demais tinham sido descontinuados bem antes de surgir meu interesse por bondes. Acho que vale à pena vocês verem aquela publicação.

Mas o Luiz me pediu para fazer nova postagem sobre o assunto. Hesitei um pouco, por não querer chover no molhado repetindo o que já é de conhecimento de todos. Assim, resolvi sair do trivial e postar o que provavelmente poucos conhecem.

Sem mais delongas, vamos à de hoje.


 1)      RELÓGIO REGISTRADOR DE PASSAGENS

Acima vemos o relógio que marcava o pagamento de passagens. A cor do mesmo variava de acordo com a companhia e com a época. Na JB, eles eram pretos; na Light, da cor mostrada na foto. Houve uma época em que havia relógios brancos.

A foto é de um reboque muito bem conservado dentro de um colégio em Jacarepaguá. O relógio não está em perfeito estado, porém considerando o tempo em que ele ali está, devemos elogiar a direção do colégio.

Para descrever o relógio coloquei marcações com letras. Vamos a elas.

A – mostrava o número do relógio. O da foto o teve apagado, não sei o motivo. Talvez para não ser possível identificar a que bonde ele pertencia.

B – registrava a quantidade de passagens pagas no percurso de ida ou de volta da linha que o bonde estava percorrendo.

C – continha os dizeres “IDA” ou “VOLTA”, para indicar o sentido do bonde.

D – registrava o total de passagens pagas até o momento, independente do dia ou da linha do bonde. Era um acumulador.

E – era uma chave que ao ser rodada zerava o contador de passagens do percurso e alternava de “IDA” para “VOLTA” e vice-versa. Era acionada quando o bonde chegava ao ponto final.

F – é uma barra metálica chata, prateada. Havia correias que eram puxadas pelo condutor, tantas vezes quantas passagens ele recebia por banco. Puxando a correia, a barra mostrada na foto também era puxada e incrementava o contador de passagens pagas, letra B na foto.

 

2)      CONTROLES DO CARRO-MOTOR

A foto acima mostra a caixa de controle de um carro motor, com dispositivos no topo destinados a permitir ao motorneiro dirigir o veículo. Ao centro vemos a manivela de marcha, com o disco graduado de velocidades (não é expresso em km/h nem em algo semelhante). A posição “N” corresponde ao ponto morto dos carros. Entre as posições 5 e 6 há um intervalo e um aviso para não parar a manivela nele. O motivo é que das posições 1 a 5 os circuitos elétricos dentro da caixa de controle estão com ligação em série, e da 6 até a 8 em paralelo. Ou vice-versa, não sei bem.

Embora a posição mais alta fosse a 8, quando o bonde estava em disparada as pessoas diziam que ele estava em “ponto 9”.

Ao lado direito e pouco abaixo da manivela de marcha vemos a manete de avante/marcha-a-ré. Na foto, está na posição avante. A marcha-a-ré era obtida apertando a pequena peça metálica no topo da manete, destravando esta, e puxando-a para trás (na direção do motorneiro).

Quando o bonde estava parado no ponto final, o motorneiro tinha de colocar essa manete na posição intermediária entre avante e marcha-a-ré, desconectando a parte elétrica da caixa de controle, retirando a manete e portando-a consigo. Assim, se um engraçadinho entrasse no bonde e acionasse a manivela de marcha, o bonde não se moveria.

Ao lado da caixa de controle vemos o manômetro do freio. A manete de freio não aparece na foto. O motorneiro dirigia o bonde sempre com a mão esquerda na manivela de marcha e a direita na manete de freio.

 

3)      CAMPAINHA

Nos carros-motor havia duas campainhas, uma em cada extremidade, perto do teto do bonde, em lados opostos. Uma corda percorria toda a lateral interna do bonde, de modo que puxando a corda a campainha soava. Os reboques bidirecionais também tinham duas campainhas, tal como os carros-motor; os reboques unidirecionais, apenas uma, do lado do estribo.

A campainha do lado direito da marcha do bonde servia a dois propósitos: quando um passageiro desejava saltar no próximo ponto, ele a puxava uma vez; parado o bonde, quando o condutor constatava que todos os passageiros já haviam embarcado ou desembarcado e portanto o bonde podia continuar seu trajeto, ele a acionava duas vezes. Isso era um sinal para o motorneiro de que ele podia movimentar o bonde. Caso este puxasse reboque, o motorneiro aguardava dois toques: um do carro-motor e outro do reboque.

Nos carros-motor, a campainha da extremidade oposta à da marcha do bonde servia para o motorneiro alertar os passageiros sobre algum obstáculo rente aos balaústres, de modo a estes se encolherem no estribo para evitar choque com o obstáculo, como por exemplo carros ou caminhões estacionados, ou tapumes de obras. Esse aviso era dado por toques ritmados da campainha, acionada por uma corda existente na cabine do motorneiro.

 

4)      SINAL NOS DESVIOS

Certos trechos possuíam ida e vinda em apenas um par de trilhos, como por exemplo na subida do Alto da Boa Vista. Para evitar que um bonde topasse com outro em sentido contrário, eram construídos desvios de espaço em espaço, munidos de um sinal dependurado em poste. Quando um bonde entrava no trecho controlado pelo sinal, acendia a luz vermelha. Um bonde em sentido contrário, ao entrar no desvio e ver o sinal aceso, ficava aguardando o que estava vindo.

A foto abaixo mostra um desses sinais.

Nas duas fotos abaixo (a segunda é close de parte da primeira) vemos dois bondes da linha Alto da Boa Vista se cruzando num desvio. Lá no fundo, dentro do círculo vermelho, aparece meio apagado o sinal referido neste tópico da postagem.



5)      UNIFORME BRANCO

Algumas vezes se via um motorneiro usando terno branco, ao invés do tradicional preto. Nunca consegui descobrir se era um uniforme alternativo, ou de verão, ou se era motorneiro aprendiz, ou se não era motorneiro e sim outro tipo de funcionário da empresa.

 

6)      PLAQUETAS DE IDENTIFICAÇÃO

Os funcionários possuíam no quepe uma plaqueta metálica indicando qual sua função na empresa. Abaixo são mostrados alguns exemplos.




OBS: Não sei o motivo da cor diferente das plaquetas das fotos acima.


 

7)      TEMPO DE SERVIÇO

Durante os anos iniciais da Light, o tempo de serviço do funcionário na empresa era indicado por estrelas na manga do seu uniforme. Cada cinco anos correspondia a uma estrela. Era motivo de orgulho o funcionário ostentar essas estrelas na manga. Vide fotos abaixo.


8)      HOTEL DOS MOTORNEIROS E CONDUTORES

Para se tornar motorneiro ou condutor de bonde era necessário um aprendizado, mais longo e detalhado para os motorneiros do que para os condutores. Pessoas humildes se candidatavam a essas funções. Para abrigá-los durante esse período, a Light construiu um hotel na rua do Bispo, número 87, local onde posteriormente se instalou a Universidade Estácio de Sá. A inauguração ocorreu no dia 16/07/1927. Ali os aprendizes tinham acomodação, alimentação e roupa lavada e recebiam cinco mil réis por dia.

O aprendizado dos condutores abrangia também o modo de tratar os passageiros com urbanidade e correção, cobrando a passagem sem agressividade. Uma vez efetivado como condutor, ele passava a receber dez a doze mil réis por dia e tinha direito a um quarto no hotel, com duas, três ou quatro camas.

Abaixo, fotos do referido hotel, tiradas no dia da inauguração do hotel.

Foto da fachada, na rua do Bispo.


A foto abaixo foi tirada do fundo do hotel em direção à rua do Bispo. A construção em frente ao hotel é a Casa de Portugal, ainda existente no local.


Abaixo uma vista de um pátio interno. Observem ao fundo latrinas e nas laterais e em cima os quartos citados no texto inicial deste tópico.

Outra vista de pátio interno, tirada para a parte traseira do hotel.



Abaixo o dormitório coletivo.




Os motorneiros eram treinados numa escola situada na rua Visconde de Itaúna, na Praça Onze, onde havia um “truck” completo de bonde, suspenso. O prédio onde ficava essa escola foi demolido para a construção da avenida Presidente Vargas. Abaixo, foto de uma reportagem da Revista da Light sobre o treinamento dos motorneiros na citada escola.


9)      BONDE FECHADO

As fotos abaixo, datadas de 27/09/1926, parecem mostrar um protótipo de bonde fechado que seria adotado pela Light. Não foi à frente.


 

10)      REBOQUES DE 2ª CLASSE

Durante muitos anos houve bondes de segunda classe, tanto carros-motor (apelidados de “taioba”) quanto reboques. Destes, havia vários modelos. As fotos abaixo mostram alguns deles.

A foto abaixo mostra um bonde da Companhia Ferro-Carril de Vila Isabel puxando um reboque de segunda classe. Observe os cestos de vime no meio do carro. Havia esse tipo de reboque misto, destinado a transporte de pessoas e pequenas cargas.

Os bondes de segunda classe (taiobas e reboques) foram extintos em meados de 1955.

 

11)   INTEGRAÇÃO COM PASSAGEIROS

Era muito comum a integração dos motorneiros e condutores com passageiros habituais. Na foto abaixo vemos uma comemoração do aniversário do motorneiro carinhosamente chamado de “titio”, como se vê nos dois pequenos cartazes, ocorrida em dezembro de 1932 no bonde Meyer x Triagem, futura linha 81.

 

12)   O PRINCÍPIO DO FIM

A década de 1950 assistiu ao princípio do fim dos serviços de bonde, até então o meio de transporte por excelência na cidade. Vejamos o caso da Light.

Entre 1951 e 1955 foram extintas as linhas:

            35 – Praça XV x Riachuelo

44 – Itapiru x Praça da Independência

49 – Itapagipe

88 – Méier x Praça Barão de Taquara


No dia 17 de agosto de 1955 a Light anunciou a extinção de mais linhas, bem como dos taiobas e reboques de segunda classe:

31 – Lapa x Leopoldina

38 – Praça Mauá x Leopoldina

39 – Praia Formosa x Praça Mauá x Arsenal de Marinha

41 – Praia das Palmeiras

48 – Itapagipe – Bispo

 

No raiar de 1957 já não existiam as linhas:

 

26 – Estrada de Ferro – 1º de Março – Independência

32 – Lapa x Av. Rodrigues Alves

34 – Praça XV x Praia Formosa

37 – Praça XV x Estrada de Ferro

55 – Rua Bela

58 – São Luiz Durão

59 – Pedregulho

71 – Barão de Mesquita – Verdun

73 – Praça Barão de Drummond

89 – Tanque

96 – Madureira x Vaz Lobo

 

Ou seja, das 75 linhas da Light, 20 foram extintas entre 1951 e 1956.

 

-----  FIM  DA  POSTAGEM  -----