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quinta-feira, 23 de novembro de 2023

FLANANDO PELO MÉIER

“É o Méier o orgulho dos subúrbios e dos suburbanos”, já disse Lima Barreto.

O Méier, bairro que conheço muito pouco (e por isto preciso da ajuda dos comentaristas sobre as fotos), é o histórico centro da "Área dos Engenhos”, que hoje é conhecida como “Grande Méier”.

O bairro é dividido ao meio pela linha férrea da antiga Central do Brasil.

Considera-se como data de sua fundação 13/05/1889. Sua urbanização começou no século XVIII, com quilombos. Até 1884 era terra de jesuítas, depois foi presenteada por D. Pedro II ao amigo Augusto Duque Estrada Meyer.

O Meyer (pronunciado “Maier”) foi aportuguesado para “Méier”.


FOTO 1: Esta foto do Arquivo Nacional, colorizada e publicada por Tiago Bandeira, mostra o Ambulatório do IAPC do Méier, localizado na Rua Ana Barbosa nº 21, inaugurado em 1946. Atualmente é o Centro Municipal de Saúde César Pernetta.

O Dr. César Pernetta foi meu professor na Faculdade Nacional de Medicina, tendo sido um grande pediatra. Foi escolhido por nós para paraninfo da turma.

No dia da formatura no Teatro Municipal, ao chegar à tribuna com um calhamaço nas mãos, ouviu-se um grande murmúrio na plateia. O Dr. Pernetta então disse: “Vocês acham que vou falar tudo isso aqui?” Ouviram-se algumas risadas e, após uns instantes, ele disse: “Vou, sim!”.

Foram mais de duas horas de uma aula magna sobre a Pediatria no Brasil...

FOTO 2: Rua Arquias Cordeiro (Méier) em 14/12/52, vista na direção Todos os Santos para Méier. À esquerda, arvoredo do Jardim do Méier, inaugurado por Paulo de Frontin em 1919, em antiga chácara pertencente ao Dr. Arquias Cordeiro.

O Jardim do Méier é um dos poucos restantes no Rio de Janeiro que ainda apresentam um coreto. Também possui um Teatro de Guignol, para apresentação de marionetes.


FOTO 3: O prezado amigo Roberto Tumminelli conta que vemos o belo prédio do Corpo de Bombeiros do bairro. Fica na Rua Aristides Caire. O prédio foi totalmente modificado, com a parte lateral reformada para o estilo art-déco. A bela cúpula e as portas em arco também. Só restou a coluna central, também modificada. Estragaram essa bela arquitetura.

FOTO 4: Esta foto foi publicada pelo Nickolas Nogueira no Facebook. É da agência O Globo. Onde estaria esta carrocinha da Kibon?


FOTO 5:  Luciana Raposo me mandou esta foto de 1892, onde vemos Isabel Lacaille da Franca Amaral, despedindo-se de seu marido Tito Antônio da Franca Amaral na chácara da Bocca do Mato, atual Grande Méier (segundo ela). Isabel Lacaille, bisavó da Luciana, morou numa casa da Rua Francisco Otaviano onde hoje é o Arpoador Inn. Nessa época, recém-casada, tinha 15 ou 16 anos. 

FOTO 6: Enviada pelo prezado Lino Coelho. Vemos o Cine Bruni-Méier na Avenida Amaro Cavalcanti nº 105. Era o antigo Cine Méier, construído em 1919 com 627 lugares. Os conhecedores da região poderão dar muitos detalhes desta foto (esta foto foi publicada no UOL e os comentários foram perdidos).


FOTO 7: Ambulância do Posto do Meyer, em 1920, em foto de Malta. 

Nesta época a assistência médica de urgência era prestada apenas na zona central do Rio, chegando sua área de ação até a estação do Rocha, da Estrada de Ferro Central do Brasil. 

O restante da região suburbana era inteiramente carente de qualquer tipo de socorro - os doentes eram transportados pelos trens da Central até uma estação onde pudesse chegar a ambulância (isto levou à criação de uma sucursal de atendimento suburbano, com a inauguração do Posto do Méier em 1920).

FOTO 8: Obras para a construção do Hospital Salgado Filho. O hospital atual foi inaugurado em 1963.


FOTO 9: Ambulância do Hospital Salgado Filho. Que rua é esta?

FOTO 10: Outra foto do Arquivo Nacional publicada pelo Tiago Bandeira. O ano é 1944 e vemos obras de construção do Mercado São João, no Méier. O mercadinho foi construído pelo governo em diversos bairros para que a população movimentasse o comércio local. No entanto, não duraram muito. O da imagem ficava localizado atrás da Basílica Imaculado Coração de Maria. Hoje no local funciona o Fórum do Méier.


FOTO 11: Parece uma cidade em guerra, mas trata-se da Rua Leite Ribeiro, no Méier, em 1957, quando da instalação de manilhas para o escoamento das águas vindas do Guandu em direção à Zona Sul. As casas passam uma ideia de muita tranquilidade nesta zona residencial.

Atualmente a rua ainda mantém muitas casas e, curiosamente, uma parte dela é bem arborizada, enquanto a outra parte é árida.

FOTO 12: "Vila dos Bancários - Méier 1942" é a legenda desta foto do “Correio da Manhã”. Onde ficava?

FOTO 13: Jardim do Méier em 1967. Há carros antigos para serem identificados.


FOTO 14: A Praça Jardim do Méier fica entre as duas partes do Méier. É cercada pelo Corpo de Bombeiros, Hospital Salgado Filho, a Estação Méier e o Viaduto do Méier. É a área verde mais importante do bairro.

FOTO 15: O Jardim do Méier em 1970. Gosto muito desta foto.


FOTO 16: Para o trajeto Méier-Penha pegue o ônibus S4.


FOTO 17: Lotação Bonsucesso-Méier. Modelo Ford.


FOTO 18: Um belo engavetamento do lotação Meyer-Cascadura, com o ônibus Cascadura-Lapa e um bonde de nº 2010, que o Helio, se aparecer, identificará.


FOTO 19 Nesta fotografia, de 1960, enviada por minha amiga Lucia Beatriz, vemos D. Moema e Ana. Ela diz que é no Méier. O lotação é um Chevrolet 1954. Tempos em que o proprietário do lotação levava o veículo para casa.

Vendo esta rua calma, tranquila, só de casas, veio-me à lembrança a música de Garoto, Vinicius e Chico: "São casas simples/Com cadeiras na calçada/ E na fachada/ Escrito em cima que é um lar/Pela varanda/Flores tristes e baldias/ Como a alegria/ Que não tem onde encostar/ E aí me dá uma tristeza/ No meu peito/ Feito um despeito/ De eu não ter como lutar/ E eu que não creio/ Peço a Deus por minha gente/ É gente humilde/ Que vontade de chorar" .


FOTO 20: Este é o viaduto Castro Alves que liga os dois lados do bairro do Méier. Ele permite o percurso entre a Rua Dias da Cruz e a Aristides Caire, em direção ao bairro do Cachambi, passando sobre a Av. Amaro Cavalcanti e a Rua Arquias Cordeiro, por onde passava o bonde Cachambi.

O viaduto foi inaugurado em 1968 e atualmente suporta um trânsito bem complicado. Fora da foto temos o início da Rua Aristides Caire, onde começa o viaduto, e logo no início, após o quartel dos Bombeiros, à direita, está a 23ª Delegacia Policial, e, à esquerda, fica o novo Fórum do Meyer.

Na foto vemos ao fundo o Quartel do Corpo de Bombeiros, a Rural e o Fusca, estão indo no sentido da Rua Aristides Caire, o prédio branco da esquina da Rua Arquias Cordeiro ainda está lá, porém bastante destruído devido à falta de manutenção, assim como todos os prédios da Av. Amaro Cavalcanti em frente à estação do Méier.

Já ia me esquecendo, na Aristides Caire, depois do cruzamento da Rua Santa Fé, tinha o Restaurante Dom Chopp.

Quem terá feito este comentário? O Joel, o Helio, o Mauro xará, nenhum deles?

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

O TÚNEL DO PASMADO

À medida que a cidade se expandia para Copacabana e além, após a abertura do Túnel Velho (Alaor Prata), em 1892, seguida da abertura do Túnel Novo, (galeria Engenheiro Coelho Cintra), em 1906, com o aumento do número de habitantes e o de automóveis, houve necessidade de abertura de mais túneis.

Em 1949 foi aberta a outra galeria do Túnel Novo (Marques Porto). Três anos depois foi aberto o Túnel do Pasmado, tema de hoje. Mais adiante ainda foram abertos os túneis Sá Freire Alvim (Barata Ribeiro-Raul Pompeia) e Major Rubens Vaz (Tonelero-Pompeu Loureiro).


Hoje temos mais uma estupenda fotografia, aproximadamente de 1940, enviada por Richard Hochleitner, a quem o "Saudades do Rio" mais uma vez agradece.

À direita, entre as árvores, vemos as cúpulas do Pavilhão Mourisco, que foi construído durante o período de Pereira Passos, em 1906, para servir de café-concerto. Ficava iluminado todas as noites, tendo, nos fundos, o Teatrinho de Marionetes, um carrossel e um ringue de patinação (este, por muitos anos, foi a sensação da cidade).

O Pavilhão Mourisco, cujo estilo de construção era neo-persa, nada tendo de mourisco, foi que deu origem ao trecho do bairro até hoje conhecido como Mourisco.

É importante observar, ainda, que o Pavilhão Mourisco, por iniciativa de Cecília Meireles, por volta da década de 1930, abrigou uma biblioteca infantil que, além do salão de leitura, tinha um setor de manualidades (modelagem, pintura, desenho), um de brinquedos e jogos, além de uma sessão de cinema toda quinta-feira.

Embora fora do traçado para abertura do Túnel do Pasmado, foi demolido.

O prédio com as torres brancas era a antiga sede do Botafogo, demolida nos anos 50 e que veremos em outras fotos mais abaixo. Mais para a esquerda o Clube Guanabara com sua piscina de água do mar.

No morro podemos observar os anúncios dos "Chapeos Cury", da "Agfa" e parte do anúncio da "Firestone".

A Av. Beira-Mar terminava exatamente em um largo (cul-de-sac) formado pela Sede do Botafogo e o Pavilhão Mourisco. Já o Guanabara tinha entrada pelo seu prédio antigo, na Av. Pasteur.

Segunda conta o Gustavo Lemos, a mansão que vemos no Morro do Pasmado foi construída em 1913 pelo empresário Caetano Pinto da Fonseca Costa, filho do Marechal João da Fonseca Costa, Visconde da Penha, e neto de Manoel Antonio da Fonseca Costa, Marquês da Gávea.
Após a morte de Caetano, a casa foi habitada por seu filho, Almirante Ayres da Fonseca Costa. Os herdeiros do almirante, entre eles o médico Ayres da Fonseca Costa Filho, ficaram com a casa.


Projetado em 1938 pela Comissão do Plano da Cidade, chefiada pelo Engenheiro José de Oliveira Reis, teve a primeira explosão para sua abertura na gestão do Prefeito Hildebrando de Araújo Góis, em 1947. A obra deslanchou no mandato de Mendes de Morais e só foi concluído em 1952, na gestão de João Carlos Vital.

Li em algum lugar que foi o primeiro túnel no Brasil e, dizem, no mundo, projetado por uma mulher, a engenheira Berta Leitchick. Liga a Avenida das Nações Unidas, na Praia de Botafogo, à Avenida Lauro Sodré. Aberto sob o Morro do Pasmado, facilita o acesso ao Túnel do Leme e, portanto, a Copacabana. Possui 220 metros de extensão e 20 de largura. Possui o nome oficial, que ninguém usa, de Túnel André Luís dos Santos Filho, antigo engenheiro da Prefeitura.

Segundo o “Correio da Manhã”, “no início dos anos 50, a construção do Túnel do Pasmado, a cargo da Municipalidade, importará na demolição da sede do Clube Guanabara e a da sede do Botafogo, embora seja mantida a piscina olímpica deste clube.

Com a abertura do túnel os bondes deixarão de passar pela Rua General Severiano para que não houvesse interferência de tráfego com os veículos procedentes do túnel."

Em setembro de 1950 o “Correio da Manhã” noticiava o início das obras do viaduto do Pasmado. Teria 25m de vão livre, sendo constituído de duas pistas independentes, uma para o tráfego de automóveis e outra para os bondes.

Em janeiro de 1952 a Cia. Ferro Carril do Jardim Botânico publicou um anúncio: “Aviso ao Público. Devido às obras da Rua General Severiano, em frente ao Túnel do Pasmado, que impossibilitam o tráfego normal da linha 4 – Praia Vermelha até seu ponto terminal, até a conclusão das obras o transporte dos passageiros no trecho acima citado e nos dois sentidos, será feito por meio de baldeação.”

Meses adiante decidiu-se que os bondes não mais utilizariam a General Severiano e deveriam seguir pela Av. Pasteur. Mas como as obras nesta última não haviam terminado, os bondes que servem a Praia Vermelha foram suspensos, obrigado a todos que se dirigem à Praia Vermelha/Urca a tomarem um ônibus, cuja passagem é mais cara que a dos bondes.

A inauguração oficial do Túnel do Pasmado foi em março de 1952.

Com 210 metros de comprimento por 22 de largura, tinha 375 pontos de luz, dispostos em 53 filas transversais e 7 longitudinais, proporcionando a mais perfeita distribuição luminosa. A General Electric e a Byington, prestaram colaboração no projeto, instalação e fornecimento do material de iluminação.

No início só dava mão para Copacabana. Havia uma faixa elevada, no meio do túnel, teoricamente para o túnel ser de mão e contramão, que atrapalhava o trânsito. Mas, em muitas ocasiões, o túnel funcionou em mão e contramão.

Entretanto, mesmo no período de mão única dentro do túnel, para o tráfego de bondes, mantinha-se a situação chamada de “mata-paulista”: os bondes trafegavam na contramão no Túnel Novo. Outro problema na época era a inexistência do Túnel Barata Ribeiro-Raul Pompeia (que seria o Túnel Sá Freire Alvim), obrigando todo o tráfego de veículos seguir, no final da Barata Ribeiro, pela Rua Djalma Ulrich até a N.S. de Copacabana e daí seguir em contramão para Ipanema, tal como já faziam os bondes.

Nesta fotografia colorizada pelo Nickolas Nogueira, vemos o Túnel do Pasmado já funcionando, com o trânsito em mão-dupla. Segundo nosso especialista Rouen os automóveis que aparecem são: Standard Vanguard, Fiat 1100, Fiat, Citroën e Pontiac (à direita).

Curioso notar que a sede do Botafogo ainda estava de pé. Era uma construção com um primeiro pavimento bem baixo, quase como um porão habitável e um segundo andar com grandes janelas ou portas, com um telhado de ardósia ou cobre no estilo dos anos 10 e 20 e quatro torretas que na foto parecem estar na armação.

Nesta foto colorizada pelo Conde di Lido, vemos a outra boca do Túnel do Pasmado. Nas pistas sentido Mourisco vemos um Citroën 11 (é o mais perto do meio-fio, com as “divisas de cabo” na grade); O pequeno esportivo é um MG TD; Na frente do MG, já entrando no túnel, um Chevrolet 38 (provavelmente, carro de praça);A traseira de carro que aparece dentro do túnel (canto inferior direito da foto) me parece de um Chevrolet 53;

Nas pistas sentido Copacabana vemos o carro mais claro, que é um Ford 1949; os dois carros logo ao lado do Ford são Chevrolet (provavelmente 1946-1948). Acho que a identificação foi do Jason ou de obiscoitomolhado.

À direita vemos o Educandário Santa Therezinha, mantido pela Santa Casa, e que tinha a função primordial de recolher e dar educação a órfãs abandonadas. O edifício foi projetado por Bittencourt da Silva e inaugurado em 1866. Com a saída da instituição religiosa, o prédio foi por muitos anos arrendado pelo colégio Anglo-Americano. Depois ali funcionou a Casa Daros, que foi vendida para o grupo Eleva Educação.  

À esquerda fica o campo do Botafogo.


Em foto colorizada pelo Conde di Lido vemos que a Favela do Pasmado ainda não tinha “descido” para o lado da Av. Beira-Mar.

Esta sede do Botafogo, que foi demolida nos anos 50, foi substituída por aquela sede que tinha o ginásio e a piscina, onde havia sensacionais competições de natação e water-polo (lembram-se do Szabo) e, no ginásio, estupendas competições de basquete e voleibol, tanto masculino e feminino (eu era um assíduo frequentador dessas competições nos anos 60/70).

Mais adiante esta nova sede foi demolida nos anos 90 para a construção daquele horroroso prédio espelhado, o Centro Empresarial Mourisco, apelidado de “Ferrero Rocher”.


No Morro do Pasmado havia uma favela que ocupava os dois lados do túnel. Iniciada no final da década de 20, se expandiu nos anos 50.

A foto mostra o lado da Rua Lauro Muller.


Outra foto da mesma época da anterior. A favela foi removida em 1964, com seus moradores sendo removidos para a distante Vila Kennedy, perto de Bangu. 

Nunca me atrevi a usar aquela passagem subterrânea. Quando saía do estádio do Botafogo caminhava até o sinal de trânsito existente em frente àquele posto de gasolina do Touring para atravessar a rua.


A favela foi removida pelo governo Lacerda e, no Morro do Pasmado, foi construído um belo parque público na administração Marcos Tamoio, com um mirante (em certa época houve um grande escândalo por conta de um suposto namoro dentro de um carro envolvendo um jogador do Botafogo – depois jogou n Flamengo, e um ex-jogador, atualmente comentarista da TV Globo).

A foto é do incêndio provocado, sob controle do Corpo de Bombeiros, nos barrados já abandonados por seus moradores, tal como presenciei da janela de casa o incêndio da Catacumba.

Na década de 90 o parque ganhou o nome de Yitzhak Rabin, político pacifista israelense, morto por um dos seus, fanático de direita, que não aceitava a paz com os palestinos. Mais recentemente no alto do Pasmado foi construído um Memorial do Holocausto.

A foto mostra obras de modificação na Av. Beira-Mar, ainda com a sede do Botafogo no local. Foram muitas intervenções nesta área a fim de melhorar o tráfego. Mudava o Secretário de Transporte e havia obras. Anos adiante, no final da década de 60, a construção do Viaduto Pedro Alvares Cabral fez outra grande modificação.


Este era o aspecto da região nos anos 70. O Clube Guanabara, o Túnel do Pasmado, a antiga sede com piscina e ginásio do Botafogo, o Viaduto Pedro Álvares Cabral e, à direita, o Cinema Guanabara.

sexta-feira, 17 de novembro de 2023

MIRANTE DONA MARTA

Hoje vamos falar do Mirante Dona Marta. 

E fica a pergunta aos comentaristas: Todos já foram aos principais pontos turísticos do Rio?

O local do mirante fica em terras que foram do Padre Clemente que, segundo texto do Sindegtur, ficou rico o suficiente para adquirir há alguns séculos a Sesmaria de Botafogo, cujas terras tinham como limite a Enseada de Botafogo, a “Lagoa de Sacopenapã” (rebatizada em 1703 para Rodrigo de Freitas, seu dono), bem como os morros que depois se chamarão de São João e Santa Marta.

Fundou Clemente a “Fazenda do Vigário Geral”, ou de “São Clemente”, numa imodesta homenagem ao seu santo onomástico. Não satisfeito, ergueu em suas terras uma capela dedicada a São Clemente, que existiu até o princípio do século XX no final da Rua Viúva Lacerda. Como se fosse pouco, abriu Clemente um caminho da enseada de Botafogo até sua capela, caminho batizado de São Clemente!

Em homenagem à sua veneranda mãe, que morreu no Rio de Janeiro em 1698 aos 92 anos (idade excepcional para a época), Clemente batizou o morro circundante de suas posses como “Morro Dona Marta”. Nome que ficou até época recente. Em 1980, os favelados da “Favela Dona Marta”, surgida em 1930 e hoje uma das mais conhecidas na cidade, em comum acordo, rebatizaram o morro para “Santa Marta”, o que deve muito ter agradado o Padre Clemente, esteja ele onde estiver.

Vemos o estacionamento do Mirante de Dona Marta. Foi construído a partir da administração Dodsworth, segundo Brasil Gerson, quando por um caminho precário, ainda de saibro, que vinha do Silvestre, se alcançava o alto do Morro de Dona Marta.

Segundo a Secretaria de Turismo, de carro, o acesso é feito pelo Cosme Velho. Siga a Ladeira dos Guararapes, na direção do Corcovado, até avistar uma placa indicando o Mirante. O acesso é fácil e há estacionamento no local.

A pé, o acesso é feito pelo Morro Dona Marta: suba até o topo da favela (é possível subir de elevador) e siga pela trilha que leva de 30 a 50 minutos. Íngreme, tem grau de dificuldade que pode variar de médio a alto. Contrate um guia especializado.

Nosso amigo Zé Rodrigo recomenda muito ir até lá de moto, pela Estrada das Paineiras. O desaparecido Rouen batia ponto com frequência no Mirante e garantia que era seguro ir até lá devido ao grande número de turistas e ao policiamento.

Atualmente há também por lá um heliponto.


Segundo outro desaparecido, o Rafael Netto, houve um projeto para construir um ramal da ferrovia até o Mirante, aproveitando os antigos trens aposentados em 1979. Mas ficou na intenção.

Durante meus tempos de aluno do Colégio Santo Inácio, todas as férias fazíamos uma caminhada saindo do Colégio de manhã bem cedo: passávamos pelo topo da então tranquila Favela Dona Marta, parávamos no Mirante para um lanche e seguíamos até o Corcovado. Descíamos de trenzinho, pois ninguém é de ferro...


Esta foto foi enviada, para o Decourt, em priscas eras, pelo sumidíssimo Carlos Paiva, colaborador notável de vários blogs do Rio antigo, como o “Saudades do Rio”.

Na época o mestre Andre Decourt assim a descreveu: “Nesta foto do meio dos anos 60 vemos a chegada ao Mirante D. Marta, talvez um dos mais belos mirantes da cidade.

Seu acesso foi em muito facilitado para o grande público nos anos 50, com a construção da “Variante Paineiras”, na realidade o caminho onde hoje chegamos, partindo da Rua Almirante Alexandrino,  ao Hotel das Paineiras, que vinha substituir a primitiva via aberta na época de Passos.

Com a construção da variante, o DER-DF, na gestão de Negrão de Lima como prefeito, começou a abrir um novo ramal, com as mesmas técnicas construtivas até o topo do Morro Dona Marta de onde se descortinava uma maravilhosa vista da Zona Sul.

No governo Lacerda o mirante ganhou suas primeiras obras de urbanização, já que o acesso estava feito, obras que foram complementadas no governo Negrão, agora governador da Guanabara.

Vemos o piso em placas de concreto armado e a cerca em gradil metálico tão típicas das obras de engenharia dessa época em nossa cidade. O mirante ficou com essa arquitetura básica durante décadas, foi ficando abandonado e perigoso nos anos 80. No início da década de 90 houve novas obras no local, mas o perigo de se frequentar o local, pelo menos de dia só diminuiu em muito com a instalação de um heliponto turístico no local.”



Foto publicada no "Saudades do Rio - O Clone", com a seguinte legenda: "Mostra, no morro em primeiro plano, uma vertente da Rua Mundo Novo praticamente vazia. Nota-se o ziguezague das ruas Jagua e Juçanã e, no fim dele, o pequeno mirante . Havia uma dúvida sobre a estrada que segue em destaque para o pé da foto. Parece que se trata da Rua Oswaldo Seabra."


O local tem uma vista tão bonita que era utilizado para propagandas de automóveis. Segunto obiscoitomolhado a foto foi publicada na revista "Quatro Rodas". Vemos um Karmann Ghia, talvez 63 ou 64.

Um antigo comentarista, fã de automóveis, apontou deficiências básicas no Karmann-Ghia: Motorização "anêmica" com seu propulsor inicial de 1200cc., mais tarde adotando melhorias e adaptações, até com motorização Porsche (Dacon). A inclinação lateral em razão do projeto obrigava ao fechamento dos vidros quando chovia, causando embaçamento pela ausência de ventilação forçada.

Os especialistas concordam com esta opinião?


Outra foto de propaganda, esta garimpada pelo M. Lobo. Vemos a foto de um anúncio da FNM - Fábrica Nacional de Motores, com um “JK” fabricado a partir de 1960, sob licença da Alfa Romeo.  

Esta foi garimpada pelo Augusto. Um casal foi comemorar o "Dia dos Namorados" no Mirante Dona Marta. Fonte: Arquivo Nacional.


Muitas autoridades eram levadas ao Mirante Dona Marta para ver o Rio desde o alto. Principalmente quando o Corcovado estava encoberto.

Vemos o Rei Juan Carlos, da Espanha, em visita ao Rio no início dos anos 80. Veio acompanhado da Rainha Sofia. Na época não havia como prever o escândalo em que se envolveria neste século, que o obrigou a abdicar em favor de seu filho Felipe VI.

Tia Milu garimpou esta foto e a publicou em seu "fotolog". Trata-se de um projeto de restaurante para o Mirante Dona Marta. Autoria do arquiteto Flávio Marinho Rêgo para a Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara.

Solução circular com pilares ao centro, em vários níveis, livrando obstáculos que possam impedir a vista panorâmica. 

Marcelo M. Rego, filho do arquiteto confirmou que o projeto se destinava ao que hoje é o heliponto de helicópteros turísticos, no acesso ao Cristo Redentor, via Cosme Velho. O projeto é de 1968, condizente com sua época e com a finalidade a qual ele se destinaria. Fica acima do Morro Dona Marta.

Tratou-se de solução semelhante que deu Oscar Niemeyer, com quem Flávio trabalhou na decada de 50, ao fantástico projeto do MAC em Niteroi. 


Vemos a planta do empreendimento feito para a Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara. Um bar-restaurante no Mirante Dona Marta.

O arquiteto Flávio Marinho Rêgo, segundo seu filho, além da reforma de 1997 da Praça XV e da revitalização da orla do Centro e de pontos turísticos como o Pão de Açúcar e do Cristo, contribuiu enormemente para a beleza do Rio, que ele tanto amava.  

Este projeto, se fosse realizado hoje, seria atualíssimo e em pouco tempo seria incorporado à cidade como mais um funcional ponto de contemplação.