Outro dia a incansável
pesquisadora Conceição Araújo comentou sobre o Edifício Palatium, sobre o qual
eu não tinha conhecimento. Vários comentaristas se manifestaram e o prezado J.A.C.
Maia conseguiu o livro da época do lançamento (foram impressos 5000 exemplares
pela Empresa Edanee, de São Paulo), origem das fotomontagens que aparecem aqui
hoje. Neste livro constam ainda as plantas dos diversos andares, além de uma
homenagem ao Presidente Getulio Vargas nas primeiras páginas. Fica aqui o agradecimento à Conceição Araújo e ao J.A.C. Maia por possibilitarem esta postagem.
Pesquisas que fiz no “Correio
da Manhã”, “Diário de Notícias” e “O Jornal” complementam esta postagem.
Os incorporadores
desejavam que o Palatium constituísse uma nova demonstração não só da
capacidade da engenharia brasileira, como da excelência da indústria nacional.
Evitariam, o quanto possível, a aplicação de material estrangeiro, usando
produtos da indústria nacional como a cerâmica, os azulejos, os aparelhos
sanitários, as ferragens, os mármores.
Na época os dois
prédios mais altos da América Latina eram o “Cavanagh” em Buenos Aires, e o “Palacio
Salvo” em Montevidéo, com 30 e 26 pavimentos, respectivamente. O Palatium superaria a ambos. Foi um sucesso de vendas quando do lançamento da obra.
O terreno onde seria
construído o Edifício Palatium, na esquina da Almirante Barroso com Rio Branco,
era onde existia o Teatro Phoenix e o Palace Hotel. Em 23/11/1940 foi assinado
o contrato para a demolição do Palace Hotel. Foram compradores José Coelho
Pereira Junior e Luiz Coatz (que já demolira os antigos prédios da Associação
Comercial, do Tesouro Nacional e do Teatro Lírico).
O projeto teria 32
andares, 160 metros de altura, 8 elevadores, lojas, cineteatro, 800 salas de
escritório, um hotel com 300 quartos com banheiros, etc...
Em 1941 foi feita uma
maquete de 2 metros de altura por 1,40m de largura que foi exposta no salão
nobre do Palace Hotel para visitação os sete dias da semana.
O Palatium teria uma
entrada única pela Almirante Barroso, com um “hall” de cerca de 20 metros de
largura por 12 de profundidade, sobre o qual se abririam 3 acessos, um para um
grande restaurante, outro no centro para os amplos elevadores dos escritórios e
o terceiro para os três elevadores do “apart-hotel”.
Os primeiros andares
seriam de lojas, os escritórios iriam até o 20º andar, a partir daí, com 3
elevadores exclusivos, haveria um “apart-hotel” até o 30º andar, tipo sala,
quarto, quitinete. O 32º andar seria ocupado por um grande salão e dependências
destinadas a um “night-club”.
Em 21/10/1940 foi
assinado o contrato de financiamento pela S.A. Martinelli, com tabela Price,
30% de entrada e prazo de 15 anos. Incorporadores: Cia. Imobiliária Rex e Costa
Pereira, Bokel Ltda. Projeto de Costa Pereira, Bokel Ltda. com a cooperação dos
arquitetos Mario Maranhão e Adalbert Szilard. Na mesa desta reunião estavam o
Comendador José Martinelli, ladeado pelos drs. Carlos Saboia Bandeira de Mello,
advogado da S.A. Martinelli, Nelson Almeida, da Imobiliária Rex, Roberto
Marinho, diretor de “O Globo”, Mattos Pimenta, presidente da Bolsa de Imóveis.
O custo total do Palatium,
prédio em estilo neo-clássico, seria de 150 mil contos de réis. As vendas,
realizadas exclusivamente por corretores da Bolsa de Imóveis (Av. Rio Branco nº
128), foram um sucesso.
Em maio de 1941 foi
publicado no “Diário Oficial”, Seção II, do dia 12, a aprovação pelo Secretário
de Viação e Obras da Prefeitura a planta do Palatium, “o mais sumptuoso edifício
da América Latina”.
Entretanto, em julho de
1941, após centenas de artigos e anúncios exaltando o empreendimento, o “Correio
da Manhã” noticiou que “As plantas aprovadas em maio sofreram tão profundas
modificações no projeto original por exigências da administração que os que
preferirem desistir da compra poderão comparecer à S.A. Martinelli para devolução
do valor investido.”
Entre as exigências da
Prefeitura constava construir uma galeria de 70 metros de comprimento por 7 metros
de largura cortando o edifício. Além da perda de 490 metros quadrados tal
galeria afetaria toda a estrutura do prédio projetado.
Mais adiante, conforme
conta o “Diário de Notícias”, nem mesmo o Palace Hotel foi demolido no início
dos anos 40, somente cerca de dez anos depois.
O projeto acabou
abandonado. Uma versão é que foi por veto do Ministério da Aeronáutica que
alegou que a altura do prédio prejudicaria a aterrissagem dos aviões no
Aeroporto Santos Dumont. Haveria que deixar de construir 10 pavimentos, o que
não seria rentável. Outra versão é que a Prefeitura não queria que hotéis
fossem demolidos.
Desenvolveu-se então um
litígio em torno do edifício do Palace Hotel, que foi desapropriado pela
Prefeitura, tendo em vista a carência de hotéis no Rio. Martinelli acusava a
Cia. de Hotéis Palace de não entregar o imóvel já pago, alegando a
desapropriação feita pelo Prefeito Henrique Dodsworth. Já o advogado do Palace
dizia que era a S.A. Martinelli que não manifestava desejo de recebê-lo,
solicitando sempre mais e mais prorrogações. Alegou que quando da
desapropriação depositou judicialmente a importância que havia recebido da
compradora, mas entendeu que não podia mais fazer a entrega do prédio.
E o “imbróglio” continuou
envolvendo a necessidade de hotéis no Rio, tendo como participantes o Prefeito
Henrique Dodsworth, o Comendador Martinelli e Octavio Guinle representante do
Palace. Estava em discussão a reforma do Palace Hotel e a construção de um
outro hotel em Copacabana. Em 1946 faleceu o Comendador Martinelli. E não sei
como acabou o litígio.
Como não encontrei
notícias de processos relativos à devolução do dinheiro suponho que a S.A.
Martinelli acertou tudo com os investidores, bem diferente do que aconteceu com
outros empreendimentos similares, como o Panorama Palace Hotel em Ipanema (com
entrada pela Rua Alberto de Campos) e o Gávea Tourist Hotel (na Estrada da
Canoa, em São Conrado, empreendimento da Companhia California de
Investimentos).
As fotomontagens abaixo mostram como o Edifício Palatium seria visto, na época, de vários pontos do Rio.