Como a maioria sabe o húngaro Gyorgy Szendrodi fotografou o Rio nos anos de 1970/1971. Nesta postagem faremos um passeio pela Copacabana de mais de 50 anos atrás através de suas fotos. Há muito o que comentar.
Vemos o aspecto da Av.
N.S. de Copacabana na altura da Rua Sá Ferreira. Já havia uma marcação para
pista exclusiva de ônibus. À esquerda
fica a Praça Sara Kubitschek. Mais adiante, entre Miguel Lemos e Xavier da
Silveira, a Casa Tavares, tanto apreciada por alguns comentaristas.
Esquina da Av. N.S. de Copacabana com Rua Xavier da Silveira. Logo após a esquina, à esquerda, na Xavier, ficava a loja da Superball, onde eu podia comprar camisas de goleiro com os cotovelos acolchoados, joelheiras com várias tiras de feltro branco para proteger a face anterior do joelho, chuteiras com travas presas por pregos.
Bola de couro havia a de nº 5, a mais desejada pelos "peladeiros". A G18 era só para profissionais. Pés-de- pato daqueles pequenos, sempre pretos, e as pranchas de madeira, com espaço vazado nos lados para as mãos e a frente ligeiramente arqueada. Raquetes de frescobol havia de dois tipos: as boas, de madeira compensada, e as ruins, mais baratas e mais frágeis.
Na Superball também se podia sonhar com a desejada mesa de ping-pong ou a de botão, oficial.
Os botões ali vendidos não serviam para nada, apesar de virem com os escudos dos times (os bons eram de osso ou improvisados com fichas de lotação/ônibus). Os goleiros dos times de botão vendidos eram ridículos: tinham um rabo de metal que passava sob a baliza de plástico - estas balizas eram logo substituídas pelas maiores, com traves de madeira e rede de filó, e os goleiros eram feitos com caixas de fósforo com chumbo dentro (para não serem derrubados naquele estilo de chute em que o botão, após tocar na bola, derrubava o goleiro antes que a bola chegasse ao gol).
Na Superball vendia-se, também, aquele jogo de tamborete que todo mundo ganhava e todo mundo detestava. E os saquinhos de filó branco com bolas de gude.
Enfim, a Superball era o sonho de todo garoto.
Na esquina com a Rua Bolivar ficava o grandioso cinema Roxy, inaugurado em 1938, com mais de 1700 lugares. Sua escadaria interna, em estilo "art-déco" era sensacional. Ficou na memória a abertura da Rank Filmes, com a cena de um gongo sendo tocado.
Após o cinema, era programa obrigatório fazer um lanche no Bob´s da Rua Domingos Ferreira e, mais raramente, ir comer uma pizza no Caravelle.
Neste quarteirão da Av. N.S. de Copacabana ficava a Papelaria Iracema, referência na época, e, no próprio edifício do Roxy, alguns estúdios onde os copacabanenses posavam para fotos.
Quem se lembra da “Copadisco”, famosa loja de discos deste trecho? O vendedor “Pelé” encontrava qualquer disco em segundos (acho que depois ele foi para a “Modern Sound”.
O Roxy acabou como cinema e está sendo
preparado para se tornar uma casa de “shows” para turistas.
A Escola Cocio Barcelos, pública, se destaca, à direita, bem na esquina da Rua Barão de Ipanema. Em meados do século passado tinha um nível excelente.
À esquerda ficava a famosa Confeitaria Colombo. Era o local de chá preferido de minha avó, fosse no salão térreo, fosse no segundo andar, e para desfrutar uma “coupe rêve d´amour”. Depois do chá ela sempre ia na loja da Colombo que dava para a Barão de Ipanema onde comprava uma lata de "marmeladinhas" e outra de torradas que vinham num tipo de “bauzinho” de metal, em duas colunas, uma sobre a outra, acolchoadas com um papel branco franzido e, também, com um papel branco em tiras, para não se quebrarem. Estas torradas tinham um gosto todo especial.
Nesta loja, como um armazém, os produtos eram embalados em papel cor de rosa ("pink", como costuma dizer o Conde) e os rolos de barbante ficavam pendurados numa armação de ferro, o que facilitava o trabalho de embrulhar. Era um ambiente bastante chique nos anos 50.
Segundo uma comentarista do SDR, “o bolinho
chamado “Rivadávia” era um sucesso, bem como o "Sacripantina". As latas redondas
de "Leques Gaufrettes" para servir com sorvete, faziam sucesso.”
Aqui vemos a esquina da
Rua Constante Ramos, do lado ímpar da N.S. de Copacabana. Ao fundo, a saudosa
Sapataria Polar. Nesta época ela já tinha se mudado da esquina da Dias da Rocha para este local. O fotógrafo estava na calçada da loja “Ao Bicho da Seda”. À direita, também do lado ímpar, a agência da Caixa Econômica, fora da foto.
O lado par da N.S. de
Copacabana, na esquina da Constante Ramos, tinha a “DUCAL”. A propaganda dizia;
“Só a Ducal tem roupa com duas calças. Uma calça para usar com o terno e outra
para uso esporte. Em nycron ou tergal a roupa com duas calças da Ducal é mais
elegante econômica, mais versátil e, pelo crédito profissional, basta trabalhar
para comprar na Ducal, Ducal, Ducal".
A Ducal foi fundada em
1950 pelos primos Afonso Carvalho e José Luiz Moreira de Souza. O primeiro era
filho do dono de “A Exposição” e irmão do famoso antiquário Paulo Afonso
Carvalho. O segundo foi o construtor da Torre Rio Sul, o primeiro grande
shopping da cidade.
Uma propaganda famosa da “DUCAL”
era com o Pelé.
Vemos a Av. N.S. de Copacabana em seu trecho entre as ruas Dias da Rocha e Raimundo Correia. Podemos observar automóveis estacionados na calçada à esquerda e uma faixa seletiva para ônibus que, na época, não deu certo.
Ali onde há a placa de "Táxi" ficava, até o início dos anos 60, o ponto do bonde que vinha pela contramão, em direção a Ipanema, bem em frente à Spaghettilandia.
Do outro lado da rua, em
frente à Dias da Rocha, ficava o Cinema Copacabana. Ao lado dele o Mercadinho
Azul, onde se podia comprar de tudo um pouco - havia um balcão que vendia
muitos tipos de macarrão e todas as formas de massa. Ali as massas eram pesadas
naquelas balanças antigas em que se equilibravam os dois pratos com uma série
de pequenos pesos que ficavam dentro de buraquinhos numa peça de madeira. Logo
na entrada, à direita, ficava o posto de venda de café. Tanto de xícaras de
cafezinho, para serem tomadas de pé, quanto de sacos de um quilo, que eram
embalados na hora. Café Palheta ou D´Orviliers. As máquinas de moer, enormes,
ficavam na parede colada com o Cinema Copacabana.
Bem na entrada do Mercadinho Azul havia uma loja que vendia as famosas e inesquecíveis calças Lee ou as Levi´s. E outra loja de venda de cigarros, isqueiros, baralhos e chaveiros. Na calçada à direita ficava a Casa da Borracha e, mais adiante, já perto do cinema Art-Palácio, que vemos na foto, a Casa São João Batista.
O Art-Palácio era no nº
759-B e foi inaugurado em 21/10/1950. Ali passavam muitos filmes franceses e,
antes dos “trailers”, havia o cinejornal “Actualités Françaises”. Logo antes do
cinema havia uma agência da Caixa Econômica.
Vizinho ficava o sensacional Metro-Copacabana, inaugurado em 05/11/1941 e demolido em 26/01/1977, na Av. N.S. de Copacabana nº 749, em frente à Rua Raimundo Correia (na esquina desta rua, do lado par da Av. N. S. de Copacabana, ficava a famosa Casa Sloper).
O Metro, além do ar-condicionado "com clima de
montanha", tinha tapetes espessos onde os pés afundavam. Ali assisti à
pré-estréia de "Ben-Hur", em benefício das "Missões" do
Colégio Santo Inácio (há décadas que não ouço falar das
"Missões"). Além dos filmes
clássicos, havia o tradicional festival Tom & Jerry, no primeiro domingo do
mês, às 10 horas da manhã.
Neste trecho ficava,
também, o ponto de bondes (direção Centro). Por ali ficavam fotógrafos
ambulantes à cata de casais enamorados e vendedoras de maçãs caramelizadas com
seus tabuleiros.
Na calçada da esquerda, a partir da Dias da Rocha, ficavam lojas como a Hermínia no 776, a Nuance no nº 774, Casas Olga.
Depois da esquina da Raimundo Correa, a Sloper, O Rei da Voz
de Abrahão Medina e, na esquina da Travessa Angrense, as Lojas Brasileiras.
Agora estamos na esquina
da Santa Clara com N.S. de Copacabana. À direita, vemos a loja “Barbosa Freitas”.
Fora da foto, um pouco antes da esquina ficava a “Cirandinha” (grande saudade
dela). O sobrado da outra esquina, embora modificado, sobreviveu até hoje. Logo
depois dele fica o Hotel Canadá, cuja marquise desabou há alguns anos.
O fotógrafo estava na
altura da Travessa Angrense, no lado par da avenida, em frente à “Lojas
Brasileiras”. Neste trecho entre a
travessa e a Santa Clara ficava o estúdio dos fotógrafos Azsmann, que era o
escolhido para muitos casamentos, e uma agência do BEG. A quadra terminava na esquina onde ficava o “Bazar 606” e, do outro lado da Santa Clara, a “Joalheria Krause”.
Logo depois da Santa
Clara, em direção à Figueiredo, no lado par da N.S. de Copacabana, ficava o “Cine
Joia”, na galeria do Shopping 680. Foi inaugurado em 1970, no local onde
funcionava o Cine-ora. O pequeno cinema é o que restou dos inúmeros cinemas de
Copacabana.
Vemos também a “Importadora
Guanabara”. Vendia de tudo um pouco, naquele tempo em que artigos importados
eram difíceis de encontrar, como um aparelhinho japonês para ver no escuro,
chamado “olho de gato”, “óculos antifarol”, “tesoura corta-tudo”, “esferográficas
gigantes japonesas com diversas cores”.
Também do lado par, no nº
690 havia a Casa Mattos, do Zé Salinas, e o curso de inglês IBEU (Instituto
Brasil-Estados Unidos). A Bemoreira ficava no 686.
No lado ímpar havia a “Casa Assuf”.
Anúncio no “Correio da Manhã” de dezembro de 1944 informava que a inauguração da “Galeria Menescal” se daria em 1º de agosto de 1945 (mas acho que só foi inaugurada mesmo em 1946).
Dizia que seria “Galeria de grande luxo, com 6 metros de largura, fachadas de
mármore e vão guarnecidos com grades artísticas. Todas as lojas têm jiraus e
sobrelojas, escadas e instalações sanitárias próprias.” Fica no nº 664 da Av. N.S. de Copacabana. Tinha,
como era obrigado na época da guerra, um subsolo reforçado para aguentar
bombardeios aéreos.
Entre as lojas antigas da “Galeria Menescal” podemos citar: A “Film Caneta Copacabana”, fundada por Klaus Scheyer, alemão que veio para o Brasil na época da 2ª Grande Guerra, e onde eu revelava os meus primeiros filmes. Depois mudou o nome para Ótica Karina.
Outras lojas eam a “Sapataria Santa Fé”, a “Lucia Boutique”, a
“Baalbek”, com a típica comida árabe, a “New Gipsy”, a “La Danse”, a “Suzette”
de roupas infantis e para grávidas, a “A toca do coelhinho”, loja de brinquedos,
a “Floricultura Belinha” em cuja vitrine escorria água, além de muitas outras.
Agora já estamos chegando
à Praça Serzedelo Correa. O “Centro Comercial Copacabana, cuja entrada para o
prédio é pela Rua Siqueira Campos nº 43, abriga escritórios e consultórios. O
Conde di Lido e eu mesmo tivemos salas ali. A parte de lojas tem vários pisos.
Eu era freguês da loja “O
DISCO DO DIA”, que vendia LPs e compactos, sempre com um LP em promoção
diariamente.
Foi construído onde
existia o "Ponto de 100 réis", local da ramificação dos bondes que
vinham pelo Túnel Velho e se dirigiam para o Leme ou para a
"igrejinha" do Posto 6. Ali ficava a Estação de Bondes de Copacabana.
Fora da foto, à direita,
ficava a loja da Kopenhagen que, na época, vendia as saudosas balas de frutas e
balas de hortelã especial, envoltas em papel celofane, além de chocolates em
geral, como as “Línguas de Gato”.
Em frente ao Centro
Comercial ficava o Café Pernambuco, na outra esquina da Siqueira Campos, durante
anos o ponto mais movimentado do bairro.
Atravessamos a Praça
Serzedelo Correa e chegamos à esquina da Rua Hilário de Gouvea. Não posso
deixar de citar a “Corujinha”, na esquina da Praça com a Hilário, onde quase
todo domingo comia uma pizza após o cinema com a namorada.
A antiga igreja de
Copacabana, que ficava na esquina da Rua Hilário de Gouveia com Av. N.S. de
Copacabana. Construída no início do século XX, sobreviveu até a década de 70,
quando demolida para construção de um prédio comercial, que em parte dele
abriga a nova igreja, modernosa, sem graça nenhuma se comparada com a da foto.
O fotógrafo estava na
calçada onde funciona há muito tempo uma agência dos Correios.
Vemos a descida da
Ladeira do Leme chegando na Praça Cardeal Arcoverde. O Posto Atlantic há tempos
tem a bandeira da Petrobras. Neste posto há uma loja de conveniência com padaria. O pão costuma ser ótimo.
A Ladeira do Leme, antiga
Rua Coelho Cintra, é um dos acessos mais antigos à Praia de Copacabana. Segundo
P. Berger, recebeu esta denominação por ali se instalar o antigo Reduto do
Leme, no tempo do vice-reinado do Marquês do Lavradio.
Agora estamos no Posto 6.
À direita, o prédio onde funcionou a TV Rio (antigo Cassino Atlântico). Ao
fundo, onde lemos no muro “Artilharia de Costa”, funciona hoje uma repartição
da Aeronáutica. Ao lado existia até 1973 a pequena igreja do Forte, que tinha
uma cruz com lâmpadas (não é a antiga igreja do Forte, que ficava sobre a pedra,
junto ao mar). Atualmente há um grande apart-hotel no local.
Nesta foto vemos a antiga pista da Av. Atlântica ainda com tráfego. E constatamos que a antiga calçada acaba justamente no limite do estacionamento atual. Na foto vemos que a pista nova em direção ao Leme já estava em uso.
Terminamos com uma foto
do “novo” calçadão de Copacabana, feito após as obras do interceptor oceânico e
da criação das novas pistas da Av. Atlântica. Não havia a ciclovia. Junto ao
meio-fio havia estacionamento para carros. À esquerda, as desaparecidas caixas
de Coca-Cola em garrafas de vidro.
*** Um agradecimento especial ao Sr. Gyorgy Szendrodi pelo grande registro feito por ele do nosso Rio dos anos 70 ***


















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